terça-feira, 24 de abril de 2018

Discórdias familiares e não só

Quantas discórdias familiares, e também não familiares dependem, sobretudo, da falta de caridade e poderiam ser solucionadas apenas com um sincero acto de amor, no qual poderia desaparecer o orgulho e o egoísmo? 

O verdadeiro servo de Deus é aquele que usa a caridade para com o seu próximo, que está decidido a fazer a vontade de Deus a todo custo, que vive em profunda humildade e simplicidade.

Padre Pio de Pietrelcina


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Terá sido profética a primeira homilia do Papa Bento?

Foi há 13 anos a primeira Missa pública do Papa Bento XVI. A Santa Missa com a "imposição do Pálio e entrega do Anel do Pescador para o início do Ministério Petrino" foi celebrada no dia 24 de Abril de 2005 na Praça de São Pedro. 

Na homilia o Papa Bento optou por um discurso pela positiva, com grande entusiasmo sobre a vivacidade da 'Barca de Pedro' naquele momento, e como não havia motivo para preocupação porque os santos intercedem por nós e é Nosso Senhor que guia a Igreja.

No entanto houve um momento que causou alguma estranheza na homilia. Uma frase enigmática que deu muito que falar durante vários anos: "Rezai por mim, para que eu não fuja, por receio, diante dos lobos."

Que devemos rezar pelo Papa todos sabemos, e a Igreja sempre recomendou muito que os fiéis o fizessem. Mas rezar para que não fuja? Fugir para onde? Sabemos que quando se é Papa se é Papa até à morte, por isso não há muito por onde fugir. E fugir dos lobos? Que lobos são esses? Estão dentro ou fora da Igreja? Se estiverem dentro são do clero ou leigos? 

As respostas a estas perguntas talvez nunca as venhamos a ter. Mas sabemos que o Papa Bento viria a renunciar ao ministério petrino no dia 11 de Fevereiro de 2013, numa decisão completamente inesperada e praticamente inédita na história da Igreja. Terá sido a homilia de há 13 anos uma homilia profética?

João Silveira


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segunda-feira, 23 de abril de 2018

Nossa Senhora que corre ao encontro de Jesus ressuscitado


Páscoa 2018. Foi mais uma vez cumprida a tradição na cidade de Sulmona (Itália): Nossa Senhora correu ao encontro do Seu Filho quando O viu pela primeira vez depois da Ressurreição. 

Este evento foi fotografado pela primeira vez em 1861, existindo ainda essa fotografia na Confraternidade de Santa Maria do Loreto. Mas existem relatos que provam que remonta ao Séc. XVII, há cerca de 400 anos.

Quando Nossa Senhora chega perto de Jesus, os membros da confraternidade abraçam-se jubilosamente, simbolizando a imensa alegria que uniu Mãe e Filho naquele encontro histórico.


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A audácia de São Jorge no Senado Romano

Os primeiros séculos do cristianismo foram caracterizados por fortes perseguições, especialmente por parte do Império Romano. Decorria uma sessão do Senado Romano, na presença do Imperador Diocleciano, cujo propósito era encontrar a maneira mais eficaz de perseguir os Cristãos. São Jorge, cavaleiro ilustre e cristão desde criança, levantou-se e proferiu uma intervenção que espantou todo o Senado. O texto encontra-se nas actas martiriais do Santo.

São Jorge: “Por que razão, invencibilíssimo Imperador, Ilustre Senado, Generosos e Nobres Cavaleiros, mudando o vosso costume de obedecer e manter as Leis, agora ordenais uma Lei tão injusta e perniciosa contra os Cristãos, que são gente virtuosa, santa, justa e digna de toda veneração e respeito. Quereis, vós, talvez, que eles adorem os vossos ídolos. E se estes não são deuses, por que quereis que eles os adorem? Aqueles que os adoram são cegos; não sabem que apenas Jesus Cristo, com o Seu Eterno Pai e com o Espírito Santo, é o verdadeiro Deus que se deve adorar, pelo qual todas as coisas são feitas e governadas. Muito melhor faríeis se, deixando a vossa cegueira, abrísseis os vossos olhos e adorásseis Jesus Cristo do que perseguir os Cristãos e querer fazê-los adorar à força os vossos falsos deuses”.

Magnezio (Cônsul): “Quem és tu? E qual é o teu nome?”

São Jorge: "O meu principal Nome é Cristão, e aqueles que me conhecem me chamam Jorge. Nasci na Capadócia e sou Nobre e tenho por ofício ser Tribuno dos cavalos do Exército do Imperador."

Magnezio: “Quem te autorizou a falar assim livremente e com tanta audácia?” 

São Jorge: “A Verdade.”

Magnezio: “O que é a Verdade?”, perguntou o Cônsul [10]. 

São Jorge: “A Verdade é Cristo, que vós, idólatras, perseguis.” 

Magnezio: “Então, você é Cristão”, disse Magnezio. 

São Jorge: “Eu sou Servo de Jesus Cristo, e, confiando n’Ele, quis dar testemunho da Verdade, no meio deste famoso Colégio.”

Imperador Diocleciano: “Eu não sei, ó Jorge, que loucura é esta tua de me contradizer, sabendo aquilo que fiz por ti, porque, conhecendo eu a Nobreza do teu sangue, e vendo a tua graça e destreza, te honrei fazendo-te Tribuno, e pensava de te dar ofícios maiores, coisas que tu alteraste todas presentemente. Eu te aconselho, como pai, e te advirto, como senhor, que deixes a tua má opinião e adores a nossos deuses, se não quiseres perder tudo aquilo que ganhaste até agora, e, junto, a vida.”

São Jorge: “Quisera Deus que tu, Imperador, tomasses conselho que para teu bem te dá o teu fiel servo, o qual é este: que, deixando de adorares aos falsos deuses, adorasses Jesus Cristo, verdadeiro Deus, o que seria salutar para o Império e para as almas também”.

Depois de várias torturas e maus-tratos, São Jorge acabou por ser martirizado enquanto o Santo pedia a Deus que perdoasse os que lhe viriam a cortar a cabeça.

Por ser o Santo onomástico do Papa Francisco (Jorge Mario Bergoglio), hoje é feriado no Vaticano.

São Jorge, rogai por nós.


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domingo, 22 de abril de 2018

Fim do “Catolicismo romano”?

Este artigo, assim mesmo intitulado pelo próprio Autor e do qual apresento abaixo a tradução em português, apareceu no blog Settimo Cielo, no dia 13 de Abril passado, sob um outro provocador título dado por Sandro Magister: La riforma di Bergoglio l'ha già scritta Martin Lutero / A reforma de Bergoglio já a escreveu Martinho Lutero [1].

O Autor é Roberto Pertici: tem sessenta e seis anos de idade e é actualmente professor de história contemporânea na Universidade de Bergamo [2]. Um académico exactamente da minha idade; o que, pela contemporaneidade da vida, me ajudou à melhor compreensão deste ensaio.

Este, é de facto notável e algo invulgar pela «agudeza e amplitude de horizonte da análise», como diz Magister, e pela lógica do raciocínio que conjuga os factos examinados, relevando a sua unitária coerência com um “projecto” ou “operação”.

Para quem partilhe de uma visão conservadora ou tradicional da Igreja, parece-me obviamente muito perturbador.... mas há que ter presente que a Fé católica e apostólica não se conjuga jamais com qualquer espécie de desespero!

As notas assinaladas entre […], são todas da minha autoria.

22 de Abril de 2018

João Duarte Bleck, médico e leigo Católico 
***
1. Neste momento do pontificado de Francisco, creio que se possa razoavelmente sustentar que este marca o ocaso dessa imponente realidade histórica definível como “catolicismo romano”.

Isto não significa, bem entendido, que a Igreja Católica esteja no fim, mas que está a chegar ao fim o modo como historicamente se estruturou e se apresentou a si mesma nos últimos séculos.

De facto, parece-me evidente que é este o projecto conscientemente seguido pelo “brain trust” que rodeia Francisco: um projecto que se pretende quer uma resposta extrema / radical à crise das relações entre a Igreja e o mundo moderno, quer como premissa para um renovado percurso ecuménico, comum às outras confissões cristãs, especialmente aquelas Protestantes.

2. Por “catolicismo romano” entendo aquela grande construção histórica, teológica e jurídica que se iniciou com a helenização (para o aspecto filosófico) e com a romanização (para o aspecto político-jurídico) do cristianismo primitivo e que se baseia sobre o primado dos sucessores de Pedro; tal como ela emerge da crise do mundo tardo-antigo e da sistematização teórica da idade gregoriana (“Dictatus Papae”) [3].

Nos séculos sucessivos, a Igreja, do mesmo modo, dotou-se de um Direito interno próprio, o Direito canónico, olhando para o Direito romano como modelo. E este elemento jurídico contribuiu para gradualmente plasmar uma complexa organização hierárquica, com precisas normas internas que regulam a vida, seja da “burocracia dos celibatários” (a expressão é de Carl Schmitt [1888-1985]) que a gere, seja dos leigos que dela fazem parte.

O outro momento decisivo da formação do “catolicismo romano” é, finalmente, a eclesiologia elaborada no Concílio de Trento [1545-1563], que reafirmou a centralidade da mediação eclesiástica em vista da salvação, em contraste com a tese luterana do “sacerdócio universal”, e que assim fixa o carácter hierárquico, unitário e centralizado da Igreja; o seu direito de controlar e, caso ocorra, condenar as posições que contrastem com a formulação ortodoxa das verdades de fé; o seu papel na administração dos sacramentos.

Esta eclesiologia foi selada no dogma da infalibilidade pontifícia proclamado no Concílio Vaticano I [1869-1870], colocado à prova oitenta anos depois, na afirmação dogmática da Assunção de Maria ao Céu (1950), a qual, juntamente com a precedente proclamação dogmática da sua Imaculada Conceição (1854), reafirma a centralidade do culto mariano.

Seria, todavia, redutor se nos limitássemos a quanto dissemos até agora. Porque existe, ou melhor existia, também um difuso “sentir católico”, assim constituído:

- uma atitude cultural que se baseia sobre um realismo, a propósito da natureza humana, por vezes desencantado, mas disposto a “tudo compreender” como premissa do “tudo perdoar”;
- uma espiritualidade não-ascética, compreensiva de certos aspectos materiais da vida e não disposta a desprezá-los;
- empenhado numa caridade quotidiana para com os humildes e os necessitados, sem precisar de os idealizar ou deles fazer quase um ídolo;
- disposto a representar-se também na própria sumptuosidade, portanto não surdo à razão de ser da beleza e das artes, enquanto testemunhos de uma Beleza suprema à qual o cristão deve tender;
- indagador subtil das moções mais recônditas do coração, da luta interior entre o bem e o mal, da dialéctica entre “tentação” e a resposta da consciência.

Poder-se-ia então dizer que naquilo a que chamo de “catolicismo romano” entrelaçam-se três aspectos, além, obviamente, do religioso: o estético, o jurídico e o político. Trata-se de uma visão racional do mundo que penetra numa instituição visível e compacta e que entra fatalmente em conflito com a ideia de representação que emergiu com a modernidade, baseada no individualismo e numa concepção do poder que, vinda de baixo, acaba por colocar em discussão o princípio da autoridade.

3. Este conflito foi considerado de diversos modos, muitas vezes opostos, por aqueles que o analisaram. Carl Schmitt olhava com admiração para a “resistência” do “catolicismo romano”, considerado como a última força com capacidade de conter as aniquiladoras forças da modernidade. Outros criticaram-no duramente: nesta luta, a Igreja católica teria desastrosamente enfatizado os seus traços jurídico-hierárquicos, autoritários, exteriores.

Para além destas opiniões opostas, certo é que nos últimos séculos o “catolicismo romano” foi constrangido a uma postura defensiva. A colocar progressivamente em discussão a sua presença social, esteve sobretudo o nascimento da sociedade industrial e o consequente processo de modernização, que inaugurou uma serie de mudanças antropológicas ainda agora em curso. Quase como se o “catolicismo romano” fosse “orgânico” (para dizê-lo numa expressão vétero-marxista) a uma sociedade agrária, hierárquica, estática, baseada na penúria e sobre o medo e não encontrasse relevância numa sociedade “afluente”, dinâmica, caracterizada pela mobilidade social.

Uma primeira resposta a esta situação de crise, foi dada pelo Concílio Ecuménico Vaticano II (1962-1965), o qual, nas intenções do Papa João XXIII [papa de 1958 a 1963] que o tinha convocado [em Janeiro de 1959], devia proceder a um “aggiornamento pastorale”, olhar com novo optimismo para o mundo moderno, em suma baixar finalmente a guarda: não se tratava mais de prosseguir um duelo secular, mas de abrir um diálogo e operar um encontro.

O mundo era percorrido naqueles anos por mudanças extraordinárias e por um inédito desenvolvimento económico: provavelmente a mais sensacional, rápida e profunda revolução da condição humana de que há vestígios na história (Eric J. Hobsbawm [1917-2012]). O evento Concílio contribuiu para esta mudança, mas foi, por sua vez, tomado por ela: o ritmo dos “aggiornamenti” – também favorecido pela vertiginosa transformação ambiental/cultural e pela convicção geral cantada [em 1964] por Bob Dylan, de que “the times they are a-changin’” – foge da mão da hierarquia, ou, pelo menos daquela sua parte que desejava operar uma reforma e não uma revolução.

Assim, entre 1967 e 1968 assiste-se à “viragem” de Paulo VI [papa de 1963 a 1978] a qual se expressa na análise preocupada das turbulências de 68 e, depois da “revolução sexual”, na encíclica “Humanae vitae” de Julho de 1968. Tanto era o pessimismo a que chegava aquele grande Pontífice nos anos 70, que, conversando com o filósofo Jean Guitton [1901-1999], se interrogava e lhe perguntava, ecoando um passo inquietante do evangelho de Lucas: “[Mas] quando o Filho do Homem regressar, encontrará ainda a fé, sobre a terra?” [Lc 18,8]. E acrescentava: “O que me magoa, quando observo o mundo católico, é que no interior do catolicismo parece às vezes predominar um pensamento de tipo não-católico e pode acontecer que este pensamento de tipo não-católico se torne amanhã o mais forte no interior do catolicismo” [4].

4. Sabe-se qual foi a resposta dos sucessores de Paulo VI a esta situação: conjugar mudança e continuidade; realizar – sobre algumas questões – as correcções oportunas (memorável, deste ponto de vista, a condenação da “teologia da libertação”); procurar um diálogo com a modernidade que fosse ao mesmo tempo um desafio: sobre temas da vida, da racionalidade do homem, da liberdade religiosa.

Bento XVI [papa de 2005 a 2013] naquele que foi o verdadeiro texto programático do seu pontificado (o discurso à Cúria romana de 22 de Dezembro de 2005 [5]), reiterou então um princípio firme: que as grandes orientações do Vaticano II deviam ser lidas e interpretadas à luz da tradição precedente da Igreja, portanto também à luz da eclesiologia saída do Concílio de Trento e do Vaticano I. Até mesmo pela simples razão de que não se pode realizar uma negação formal da fé acreditada e vivida desde há gerações e gerações, sem introduzir um “vulnus” [6] irreparável na auto-representação e na percepção pública de uma instituição como a Igreja.

Sabe-se também como esta linha causou uma rejeição generalizada, não apenas “extra ecclesiam”, onde se manifestou através de uma agressão mediática e intelectual contra o Papa Bento absolutamente inédita, mas – com este modo nicodemitico [7] e de murmúrio congénito no mundo eclesial – também no corpo eclesiástico, o qual, substancialmente, deixou sozinho aquele Papa nos momentos mais críticos do seu pontificado. Daqui, creio, a sua renúncia de Fevereiro de 2013, a qual – para além de reconfortantes interpretações – aparece como um evento histórico, do qual as razões e as implicações de longo-prazo permanecem ainda todas por aprofundar.

5. Foi esta a situação herdada pelo Papa Francisco [papa desde 13 de Março de 2013]. Limito-me apenas a mencionar os aspectos biográficos e culturais que tornavam “ab initio” Jorge Mário Bergoglio em parte estranho àquilo que designei de “cattolicesimo romano”:

- o carácter periférico da sua formação, profundamente radicada no mundo latino-americano, que lhe dificulta encarnar a universalidade da Igreja ou, pelo menos, o impele para vivê-la de um modo novo, deixando de lado a civilização europeia e a norte-americana;
- a pertença a uma Ordem, como a Companhia de Jesus, que no último meio século realizou um dos mais clamorosos reposicionamento político-cultural de que se tem notícia na história recente, passando de uma posição “reaccionária” a uma “revolucionária” com variações, dando assim prova de um pragmatismo por muitos aspectos digno de reflexão;
- a estranheza ao elemento estético que é próprio do “cattolicesimo romano”, a sua ostensiva renúncia a toda a representação da dignidade do cargo (os aposentos no Palácio Apostólico, a mozeta vermelha [8] e o costumeiro aparato pontifício, os automóveis de representação, a residência [de Verão] de Castel Gandolfo) e aqueles a que chama “hábitos de príncipe Renascentista” (a começar pelo atraso e depois ausência num concerto de música clássica em sua honra, nos inícios do pontificado).

Prefiro tentar sublinhar o que me parece poder constituir o elemento unificante das múltiplas mudanças que o Papa Francisco está introduzindo na tradição católica.

Faço-o baseando-me num pequeno livro de um eminente homem de Igreja, que vem geralmente considerado como o teólogo de referência do actual pontificado, citado eloquentemente por Francisco logo no seu primeiro Angelus, de 17 de Março de 2013, quando disse: “Nestes dias, pude ler o livro de um Cardeal – o Cardeal Kasper, um teólogo estupendo, um bom teólogo – sobre a misericórdia. Aquele livro fez-me muito bem. (Não julgueis que estou a fazer publicidade dos livros dos meus Cardeais, porque não é isso…!) É que [o livro] me fez mesmo bem, muito bem...” [9].

O livro de Walter Kasper a que me refiro tem por título: “Martinho Lutero. Uma perspectiva ecuménica” [10] e é a versão reelaborada e ampliada de uma conferência feita pelo Cardeal no dia 18 de Janeiro de 2016, em Berlim. O capítulo sobre o qual quero chamar a atenção é o sexto: “Actualidade ecuménica de Martinho Lutero”.

Todo o capítulo é construído sobre uma argumentação binária, segundo a qual Lutero foi induzido a aprofundar a rotura com Roma principalmente devido à recusa do Papa e dos bispos de proceder a uma reforma. Foi apenas perante a surdez de Roma – escreve Kasper – que o reformador alemão “com base na sua compreensão do sacerdócio universal, se viu obrigado a contentar-se com uma organização [ou sistema] de emergência. Ele, porém, continuou a confiar no facto de que a verdade do Evangelho se imporia por si só e assim deixou a porta fundamental aberta para um possível futuro entendimento”.

Mas também da parte católica, nos inícios do século XVI, muitas portas permaneciam abertas; a situação era, por assim dizer, fluida. Escreve Kasper: “não havia uma eclesiologia católica harmonicamente estruturada, mas unicamente aproximações, que eram mais uma doutrina sobre a hierarquia do que uma verdadeira e própria eclesiologia. A elaboração sistemática da eclesiologia terá lugar somente na teologia da contra-Reforma como antítese à polémica da Reforma contra o papado. O papado torna-se assim, de uma maneira até então desconhecida, o sinal distintivo do catolicismo. As respectivas teses e antíteses confessionais condicionaram-se e bloquearam-se mutuamente”.

Portanto, hoje é preciso – se considerarmos o sentido global da argumentação de Kasper – proceder a uma “desconfessionalização” seja das Confissões reformadas, seja da Igreja Católica, não obstante esta jamais se tenha sentido uma “Confissão”, mas sim como a Igreja universal. É preciso regressar a qualquer coisa de semelhante à situação que precedeu o eclodir dos conflitos religiosos do século XVI.

Enquanto que no campo luterano esta “desconfessionalização” esteja, hoje, já amplamente cumprida (com a secularização forçosa daquelas sociedades, para as quais os problemas que estavam na base das controvérsias confessionais se tornaram irrelevantes para a esmagadora maioria dos cristãos “reformados”), no campo católico, ao invés, há ainda muito por realizar, precisamente por causa da supervivência [ou permanência] de aspectos e estruturas daquilo a que chamei o “catolicismo romano”. É, portanto, sobretudo ao mundo católico que é dirigido o convite à “desconfessionalização”. Kasper invoca-a como “uma redescoberta da catolicidade originária, não limitada por um ponto de vista confessional”.

Para tal finalidade, é assim necessário levar a bom termo, uma vez por todas, a superação da eclesiologia tridentina e a do Vaticano I. Segundo Kasper o Concílio Vaticano II abriu a estrada, mas a sua recepção foi controversa e nada linear. Daqui o papel do actual Pontífice: “o Papa Francisco inaugurou uma nova fase no referido processo de recepção. Ele sublinha a eclesiologia do povo de Deus, o povo de Deus em caminho, o sentido da fé do povo de Deus, a estrutura sinodal da Igreja, e para a compreensão da unidade coloca em jogo uma abordagem nova, interessante. Descreve a unidade ecuménica não mais com a imagem de círculos concêntricos ao redor do centro, mas com a imagem do poliedro, ou seja, de uma realidade com muitas faces, não um puzzle unificado do exterior, mas um todo e, tal como uma pedra preciosa, um todo que reflecte a luz que a atinge de modo maravilhosamente múltiplo. Referindo-se a Oscar Cullman [1902-1999] [11], o Papa Francisco retoma o conceito da diversidade reconciliada”.

6. Se relermos brevemente a esta luz as atitudes de Francisco que suscitaram mais celeuma, compreendemos melhor a sua lógica comum:

- o acentuar, desde o dia da eleição, da sua função de bispo de Roma, mais que de Pontífice da Igreja universal;
- a destruturação da figura canónica do Pontífice Romano (o celebérrimo “quem sou eu para julgar?”), a base da qual - no seu âmago - não se explica apenas por motivos da seu temperamento a que se aludiu primeiramente, mas por um motivo mais profundo, de carácter teológico;
- o enfraquecimento prático de alguns sacramentos, entre os mais característicos do “sentir católico” (a confissão auricular, o matrimónio indissolúvel, a eucaristia), realizado por razões pastorais de “misericórdia” e “acolhimento”;
- a exaltação da “parrésia” [12] dentro da Igreja, da confusão presumivelmente criativa, à qual se liga uma visão da Igreja quase como uma federação de Igrejas locais, dotadas de amplos poderes disciplinares, litúrgicos e até doutrinais.

Há quem se escandalize pelo facto de que na Polónia acabará por vigorar uma interpretação da [Exortação Apostólica] “Amoris Laetitia” diversa da que se fará na Alemanha ou na Argentina, relativamente à comunhão dos divorciados recasados. Mas Francisco podia responder que se trata de facetas diversas daquele poliedro que é a Igreja Católica, ao qual se poderia juntar, tarde ou cedo – porque não? – também as Igrejas reformadas pós-luteranas, num espírito justamente de “diversidade reconciliada”.

Por este caminho, é fácil de prever que os próximos passos serão uma nova concepção da catequese e da liturgia, num sentido ecuménico, também aqui com o caminho a percorrer pela parte católica muito mais exigente que o da parte protestante, considerando os diversos pontos de partida, bem como um enfraquecimento do sacramento da Ordem nos seus aspectos mais “católicos”, isto é, no celibato eclesiástico, com o que a hierarquia católica cessará também de ser a “burocracia dos celibatários”, da expressão de Carl Schmitt.

Compreende-se então melhor, a verdadeira e própria exaltação da figura e da obra de Lutero que se produziu nos vértices da Igreja Católica por ocasião do quinto centenário de 1517, até ao discutido selo comemorativo que lhe foi dedicado pelos correios do Vaticano, com ele e Melanchthon [1497-1560] aos pés de Jesus crucificado.

Pessoalmente não tenho dúvidas que Lutero seja um dos gigantes da “história universal”, como antes se gostava de dizer, mas «est modus in rebus» [13]: sobretudo as instituições devem ter uma espécie de moderação ao realizarem viragens desta dimensão, sob pena de cair no ridículo: o mesmo ridículo que o século vinte nos infligiu, quando os comunistas reabilitavam em uníssono e de volta ao poder os “heréticos” condenados e encarniçadamente combatidos até à véspera: a “contra-ordem, camaradas!” dos [famosos] cartoons de Giovannino Guareschi [1908-1968] [14].

7. Se, portanto, ontem o “catolicismo romano” era considerado como um corpo estranho da modernidade, estranheza que não lhe era perdoada, é natural que o seu ocaso [ou declínio] seja hoje saudado com alegria pelo “mundo moderno” nas suas instituições políticas, mediáticas e culturais e que o Pontífice actual seja visto como aquele que cura aquela ruptura entre os vértices eclesiásticos e o mundo da informação, das organizações e dos “think tank” internacionais, ruptura essa que – aberta em 1968 com a [Encíclica] “Humanae Vitae” – se aprofundou nos pontificados seguintes.

E é também natural que grupos e ambientes eclesiásticos que já nos anos sessenta auspiciavam a ultrapassagem da Igreja tridentina e que, nesta perspectiva, leram o Vaticano II, depois de terem vivido na sombra estes últimos quarenta anos, tenham hoje saído à luz do dia e se reencontrem, com os seus herdeiros leigos e eclesiásticos, entre os que constituem aquele “brain trust” que referi no início [cf. terceiro parágrafo do nº 1].

No entanto permanecem em aberto algumas questões que mereceriam ulteriores e não-fáceis reflexões.

A operação levada avante pelo Papa Francisco e pela sua “entourage” conhecerá um sucesso duradouro ou acabará por encontrar resistências, no interior da hierarquia e do que resta do povo católico, maiores do que aquelas, definitivamente marginais, que já emergiram no seio da hierarquia?

A que tipo de nova realidade “católica” na sociedade ocidental, dará vida a referida operação?

E em termos mais gerais: que consequências essa operação poderá ter sobre o património cultural global, político e religioso do mundo ocidental, o qual, embora tenha atingido um nível de secularização generalizado, repousa em parte sobre o “catolicismo romano”?

Mas é preferível que os historiadores não façam profecias e se contentem por compreenderem qualquer coisa, se conseguirem, dos processos em curso.
  
Notas do tradutor:

1. Pode ler-se em italiano, inglês, espanhol e francês, em:

2. Para saber quem é, pode ler-se, por exemplo:

3. Ver em:

4. Da última conversa que o referido filósofo francês teve com Paulo VI, dia 8 de Setembro de 1977. Cf. J. Guitton, Paolo VI segreto, 1977.

5. Pode ler-se em:

6. Vulnus: ferida, ofensa.

7. Nicodemitico, no original italiano: em referência a Nicodemos, o fariseu membro do Sinédrio que se aproximava de Jesus, pela noite. Cf.: Jo 3,1-21; Jo 7,50-52; e Jo 19,39.

8. «Capa curta e com pequeno capuz, aberta ou abotoada à frente, usada, durante o Inverno, nos ofícios de coro, sobre a sotaina ou, eventualmente sobre a sobrepeliz ou o roquete, por determinados clérigos (Papa, cardeais, bispos, abades, cónegos) como sinal de jurisdição» (Thesaurus, vocabulário de objectos do culto católico, edição da Fundação da Casa de Bragança, Vila Viçosa, 2004, entrada nº 860, p. 174).

9. A alocução do Papa Francisco neste Angelus, pode ler-se em:

10. Para saber mais sobre o desenvolvido deste tema pelo Cardeal Walter Kasper, pode ler-se, em português do Brasil, a seguinte transcrição, em:
ou, melhor ainda, o artigo subscrito pelo próprio Cardeal Kasper, sob o título Una prospettiva ecuménica. Sguardo su Lutero alla vigilia del quinto centenario della Riforma, publicado no L’Osservatore Romano, dia 18 de Maio de 2016, em:

11. Sobre este teólogo luterano, pode ler-se em:

12. Parrésia: liberdade oratória; afirmação corajosa; liberdade de linguagem, franqueza; confissão, espécie de confissão (Cf. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa).

13. Est modus in rebus: há um limite nas coisas. Frase com que Horácio aconselha a moderação em tudo.

14. O célebre criador da figura de Don Camillo; ver em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Giovannino_Guareschi


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A importância de guardar o Coração

Guardar o coração significa amar com pureza e paixão aqueles a quem devemos amor, e excluir ao mesmo tempo os ciúmes, as invejas e inquietações, que são causas certas de desordem no amor. 

A guarda do coração significa sempre a ordem no amor. A guarda do coração ensina o cristão a penetrar na profundidade de alma, para descobrir os seus movimentos e tendências. 

Salvatore Canals in 'Ascética Meditada'


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sexta-feira, 20 de abril de 2018

A doutrina perene da Igreja sobre a Liberdade Religiosa

Sobre a liberdade religiosa, podemos resumir em três itens o ensino oficial do Magistério eclesiástico: a) ninguém pode ser coagido, pela força, a abraçar a Fé Católica; b) o erro não tem direito nem à existência, nem à propaganda, nem à acção; c) este princípio não impede que o culto público de religiões falsas possa ser, eventualmente, tolerado pelos poderes civis, em vista de um bem maior a obter-se, ou de um mal maior a evitar-se (Cfr. AL. Pio XII, 6.XII.1953).

Com o princípio de bom senso, que tolera a eventual existência de religiões falsas, a doutrina da Igreja atende mesmo às condições de facto de uma sociedade religiosamente pluralista. Não admite, porém, nem poderia admitir, no homem, um direito natural de seguir a religião do seu agrado, prescindindo de seu carácter de verdadeira ou falsa. 

Aceitar semelhante direito em nome, por exemplo, da dignidade humana, envolve uma profunda inversão da ordem das coisas. Pois a dignidade do homem, que toda ela procede de Deus, passaria a sobrepor-se à obrigação fundamental que tem esse mesmo homem com relação a Deus: a de cultuá-Lo na verdadeira religião.

Outra posição lesiva dos direitos divinos está implícita naquele princípio: o Estado deveria ser necessariamente neutro em matéria de religião. Deveria sempre dar plena liberdade de profissão e propaganda a qualquer culto. 

Atitude esta que contradiz o ensino católico tradicional, uma vez que, criatura de Deus, também a sociedade, como tal, tem o dever de prestar-Lhe culto na religião verdadeira, e de não permitir que cultos falsos possam blasfemar o Santíssimo Nome do Senhor (Cfr. Leão XIII, Enc. 'Immortale Dei' e 'Libertas'). Não é difícil verificar-se que este princípio falsíssimo de liberalismo corre em meios católicos como doutrina oficial.

D. António de Castro Mayer in 'Circular sobre a pureza e integridade da Fé' (1 de Junho de 1981)


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As necessárias virtudes de Diáconos, Sacerdotes e Bispos

Os diáconos devem ser castos e púdicos, sóbrios, desinteressados, discretos, leais; devem saber governar a sua casa com prudência e dignidade. 

Mais perfeitos ainda devem ser os presbíteros e os bispos (Tit. I, 7-9): a sua vida deve ser de tal modo pura que sejam irrepreensíveis; devem, pois, combater com cuidado o orgulho, a ira, a intemperança, a cobiça, e cultivar as virtudes morais e teologais, a humildade, a sobriedade, a continência, a santidade, a bondade, a hospitalidade, a paciência, a doçura e sobretudo a piedade, que é útil a tudo, a fé e a caridade (I Tim. VI, 11). 

É necessário até dar exemplo destas virtudes, e por consequência praticá-las em grau elevado: 'In omnibus teipsum praebe exemplum bonorum operum' (Tit. II, 7). Todas estas virtudes supõem não somente um certo grau de perfeição já adquirida, mas além disso um esforço generoso e constante para a perfeição.

Pe. Adolphe Tanquerey in 'Compêndio de Teologia Ascética e Mística' (Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 4ª Edição, 1948, p. 228)


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quinta-feira, 19 de abril de 2018

13 anos da eleição do Papa Bento XVI



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6 respostas do Papa Bento a perguntas de reclusos

Há 13 anos o Cardeal Ratzinger foi eleito Papa. Para ter presente o seu pontificado, vale a pena recordar este diálogo entre o Papa Bento XVI e alguns reclusos de uma prisão romana.

Pergunta #1: Pergunto a Sua Santidade se este gesto vai ser entendido na sua simplicidade também pelos nossos políticos e governantes para que se restitua a todos os últimos - nós incluídos, os detidos - a dignidade e a esperança que é preciso reconhecer a todos os seres.

Resposta Papa Bento: Vim sobretudo para mostrar-vos a minha proximidade pessoal e íntima na comunhão com Cristo que vos ama. Mas, certamente esta visita que para vós é pessoal, é também um gesto público que recorda aos nossos cidadãos, ao nosso governo, o facto de que há grandes problemas e dificuldades nas prisões italianas. E, efectivamente, o objectivo destas prisões é o de ajudar a justiça, e a justiça implica como primeiro dado a dignidade humana. Da parte que depende de mim, quero assinalar sempre que é importante que as prisões respondam ao seu objectivo de renovar a dignidade humana e melhorar a sua condição e não de a comprometer. Esperemos que o governo tenha a possibilidade de responder a esta vocação.

Pergunta #2: Mais do que uma pergunta, prefiro pedir-lhe que no deixe agarrar-nos a si com os nossos sofrimentos e os dos nossos familiares, como a um cabo eléctrico que nos comunica com o nosso Senhor. Gosto muito de si.

Resposta Papa Bento: Eu também gosto muito de si. A identificação do Senhor com os presos interpela-nos profundamente. E eu também tenho de me perguntar: "Cumpri o imperativo do Senhor?" Vim aqui porque sei que em vós me espera o Senhor, que necessitais que se vos reconheça humanamente e que necessitais da presença do Senhor que no Juízo Final nos pedirá contas disso, por isso espero que estes centros cumpram cada vez mais com o objectivo de ajudar os detidos a reencontrar-se, a reconciliar-se com os outros, com Deus, para incorporar-se de novo à sociedade e ajudar ao progresso da humanidade.

Pergunta #3: Parece-lhe justo que agora que sou um homem novo e pai de uma menina de poucos meses não me dêem a possibilidade voltar a casa, apesar de ter pago amplamente a minha dívida para com a sociedade?

Resposta Papa Bento: Antes de mais, parabéns! Fico contente de que se considere um homem novo. Sabe que para a doutrina da Igreja a família é fundamental e é importante que um pai tenha nos braços a sua filha. Por isso rezo e espero que quanto antes possa recebê-la realmente no seus braços e estar com a sua mulher para construir uma bonita família e contribuir para o futuro de Itália.

Pergunta #4: Que podem pedir os presos doentes e seropositivos ao Papa? Fala-se muito pouco de nós, e por vezes de uma forma tão feroz que parece que nos querem eliminar da sociedade. Fazem que nos sintamos infrahumanos.

Resposta Papa Bento: Temos que suportar que alguns falem mal de nós. Também falam mal do Papa e, no entanto, vamos para a frente. Creio que é importante alentar todos para que pensem bem, para que entendam que vocês sofrem, para que compreendam que têm de vos ajudar a levantar-vos. Eu farei todo o possível para convidar a pensar de forma justa - não com desprezo mas com humanidade - que todos podemos cair, mas Deus quer que todos cheguemos a ele, e que podemos cooperar, com espírito de fraternidade e reconhecendo a nossa fragilidade, neste processo para que os que caíram se levantem e prossigam a sua vida com dignidade.

Pergunta #5: Santidade, ensinaram-me que Nosso Senhor vê e lê dentro dos corações; por isso pergunto: porque é que a absolvição se delega nos sacerdotes? Se eu, sozinho, pedisse de joelhos a absolvição dirigindo-me ao Senhor, seria absolvido?

Resposta Papa Bento: É preciso dizer 2 coisas. A primeira, naturalmente, se se ajoelha e com verdadeiro amor de Deus lhe pedir perdão, Deus perdoá-lo-á. Mas há outro elemento: o pecado não é só algo pessoal, individual, entre Deus e eu, o pecado tem sempre uma dimensão horizontal. Por isto esta dimensão social, horizontal, do pecado exige que se absolva também no âmbito da comunidade humana, da comunidade da Igreja, exige o Sacramento. A absolvição do sacerdote, a absolvição sacramental é necessária para absolver-me deste laço com o mal e reintegrar-me na vontade de Deus, dando-me a certeza de que me perdoa e me recebe na comunidade dos seus filhos.

Pergunta #6: Santo Padre, no mês passado esteve em visita pastoral em África, no pequeno país do Benin, uma das nações mais pobres do mundo. Aí têm esperança e fé em Deus, e morrem no meio da pobreza e da violência. Porque é que Deus não os escuta? Será que ouve só os ricos e os poderosos que, aliás, não têm fé?

Resposta Papa Bento: A medida de Deus e os seus critérios são diferentes dos nossos. Deus dá a estas pessoas a alegria da sua presença, faz que sintam que está próximo deles, mesmo no sofrimento e na dificuldade e, naturalmente, chama-nos para que façamos o que estiver nas nossas mãos para que saiam das trevas das doenças e da pobreza. Temos de rezar a Deus para que haja justiça, para que todos possam viver na alegria de ser seus filhos.



Visita do Papa Bento XVI à prisão romana de Rebibbia (18/12/2011)


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quarta-feira, 18 de abril de 2018

A riqueza da ordenação sacerdotal em Rito Bizantino

O Bispo Manuel Nin, exarca apostólico para os católicos de Rito Bizantino na Grécia, ordenou o Diácono David Grunda.


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Se Deus não existe tudo é permitido




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terça-feira, 17 de abril de 2018

O Segredo para um Casamento Feliz segundo o autor do 'Senhor dos Anéis'

J.R.R Tolkien era um romântico. Quando com 16 anos conheceu a sua futura mulher, Edith, ficou desde o primeiro momento encantado e começou imediatamente a cortejá-la informalmente, levando-a regularmente às casas de chá da zona onde moravam. Ao aperceber-se deste romance, o Padre responsável pela educação de Tolkien, preocupado com a sua distracção dos estudos, proibiu-o de ter qualquer contacto com Edith até completar 21 anos de idade. Tolkien obedeceu relutantemente. Durante cinco longos anos esperou pacientemente por aquela que sabia ser a sua alma gémea. Na tarde em que celebrou 21 anos, escreveu uma carta a Edith em que declarou o seu amor e pediu a sua mão em casamento. Uma semana mais tarde estavam noivos.

Durante a sua vida, Tolkien escreveu vários poemas de amor à sua mulher e em cartas para amigos escreve apaixonadamente sobre ela. No entanto o seu mais famoso tributo à sua amada esposa, e aquele perdura no tempo, foi a transposição do seu romance para a mitologia da Terra Média, mais concretamente na história de Beren e Luthien. Dificilmente se encontra maior e mais comovente tributo. Tolkien escreve assim ao seu filho Cristopher:

«Nunca chamei à Edith Luthien, mas ela foi a inspiração da história que, com o tempo, se tornou central no Silmarilion. Concebi a ideia pela primeira vez na floresta de Roos, Yorkshire (onde estive a comandar um posto avançado da guarnição de Humber por um curto período de tempo em 1917, e tive a possibilidade de a ter a viver comigo) numa pequena clareira repleta de flores. Naqueles dias os seus cabelos eram negros, a sua pele clara, os seus olhos mais brilhantes do que possas imaginar, e ela cantava e dançava.»

Mesmo após a morte Tolkien não quis estar longe da sua Edith. Encontra-se enterrado junto a ela, debaixo de mesma lápide inscrita com os nomes “Beren e Luthien”. Pode dizer-se, utilizando a expressão popular, que Tolkien estava muito “apaixonado” pela sua mulher. 

O Verdadeiro Amor Dói

J.R.R. Tolkien teve um casamento feliz durante 55 anos. Em contraste nos dias de hoje a taxa de divórcio é absurdamente elevada, com algumas pessoas a defender que o casamento e as relações monógamas simplesmente não são possíveis ou sequer saudáveis, e consequentemente, a desistir completamente destas. Afinal o que é que o Tolkien tinha que parece faltar a muitos casamentos e relações? Como é que ele fez o seu funcionar? A resposta é simples, o amor verdadeiro envolve sacrifício.

A definição moderna reduz o Amor a puro sentimento, centrado principalmente na própria pessoa. Se alguém nos entusiasma, se a sua proximidade nos acelera a pulsação, nos provoca borboletas na barriga, se essa pessoa nos satisfaz e aos nossos desejos, então estamos apaixonados e segundo a definição moderna, podemos dizer que amamos.

Apesar de profundamente ligado à sua mulher, Tolkien rejeitava esta ideia superficial do que é o Amor. Pelo contrário, abraçava antes o conceito Católico de Amor verdadeiro que, por ser centrado no outro, exige um sacrifício dos instintos naturais e consequentemente um acto determinado de vontade.

Um excerto de uma carta de Tolkien ao seu filho Michael ilustra a profundidade da sua visão do amor matrimonial. Nela, o escritor revela um lado diferente, com o qual muitos não estão familiarizados. As suas palavras podem parecer chocantes, ou mesmo ofensivas para todos aqueles com uma visão excessivamente sentimentalista do amor, no entanto, se verdadeiramente compreendidas e vividas resultam numa verdadeira e duradora felicidade no casamento.

«Os Homens não são monógamos. Não vale a pena fingir. Os homens na sua natureza animal, simplesmente não o são. A monogamia, embora há muito tempo fundamental para as nossas ideias herdadas, é para nós homens uma ética “revelada” de acordo com a fé, e não da carne. A essência do mundo decaído é que aquilo que tem de melhor não consegue ser alcançado pelo gozo desregrado dos prazeres imediatos, ou por aquilo que chamam “auto-realização” (normalmente subterfugio para uma autoindulgência, completamente desligada da realização do outro); mas pela negação de si mesmo, pelo sofrimento. Fidelidade num casamento cristão implica isso mesmo: uma grande mortificação.

Para um homem Cristão não há como escapar. O casamento ajuda a santificar e a direcionar os desejos sexuais para o seu verdadeiro objectivo; a sua graça ajuda o homem no seu esforço, mas o desafio mantem-se. Da mesma forma que a fome pode ser combatida com refeições regulares, estas não serão suficiente para a sua satisfação permanente. O estado de pureza exigido pelo casamento em si apresenta tantos desafios como o alivio que oferece. 

Nenhum homem, independentemente de quão apaixonado pela sua noiva no dia do casamento, se manteve fiel de corpo e alma à sua mulher sem o exercício consciente da vontade, sem espirito de sacrifício. Infelizmente este é um assunto pouco falado, mesmo entre os jovens educados na Fé e especialmente para todos aqueles mais distantes da Igreja.

Quando a novidade se esgota, a magia acaba, ou simplesmente desvanece ligeiramente, as pessoas assumem que se enganaram, que a sua verdadeira “alma gémea” é afinal outra. A sua “verdadeira alma gémea” acaba muitas vezes por ser a próxima pessoa sexualmente atraente que aparece, alguém com quem podiam ter casado e ser realmente felizes… aqui entra o divórcio como a única solução possível.

Claro que regra geral até estão certos: de facto cometeram um erro. Apenas alguém muito sábio, no fim da sua vida, poderia com alguma certeza avaliar com quem, de entre todas as hipóteses possíveis, teria tido um melhor casamento. Quase todos os casamentos, mesmo os mais felizes, são erros no sentido em que na maioria dos casos (num mundo mais perfeito ou mesmo com mais cuidado neste mundo imperfeito) ambos os esposos poderiam ter encontrado alguém mais adequado um para o outro. No entanto a verdadeira “alma gémea” é a pessoa com quem são casadas. Neste mundo decaído temos como únicos guias a prudência, a sabedoria (rara na juventude e demasiado tarde na velhice), um coração puro e a fidelidade da vontade.»

(Carta de J.R.R. Tolkien, p 51 – 52)

O Amor é uma Batalha

Muita gente fica ofendida com a maneira franca como o escritor fala sobre o casamento. “Se realmente amas alguém, não deveria ser difícil amar! Não deveria ser um esforço! Viver o casamento como uma mortificação? Que ofensivo! Não deves amar verdadeiramente a tua mulher”.

Esta linha de pensamento ignora completamente o ponto mais importante, o verdadeiro amor é uma luta contra o amor próprio. É um esforço contra a nossa natureza decaída e egoísta. É uma morte que gera vida. Um homem que seja honesto consigo mesmo tem que admitir que Tolkien tem razão. A luta pela castidade e fidelidade não acaba, não importa quanto amas a tua mulher.

A essência do amor é um acto de vontade. Os sentimentos no casamento vão e voltam. Aqueles que têm casamentos longos e felizes são os que fazem uma escolha, a escolha de amar as suas mulheres mais do que a si mesmos, que escolhem sacrificar os seus desejos imediatos por uma felicidade duradoura, que escolhem doar-se em vez de possuir.

E sabes que mais? Quando se escolhe ser fiel, inevitavelmente a felicidade é o resultado. Tanta gente desiste quando as coisas ficam difíceis, no exacto momento em que se simplesmente escolhessem a fidelidade e persistissem na luta encontrariam a felicidade no fim do esforço. Outro católico com um casamento feliz, G.K. Chesterton, escreveu: “Já conheci muitos casamentos felizes, mas nunca um compatível. O grande objectivo do casamento é lutar e sobreviver ao momento em que a incompatibilidade se torna inquestionável. Porque o homem e a mulher, são essencialmente incompatíveis.”

A verdadeira alegria e a felicidade duradoura no casamento são possíveis. Um número incontável de casamentos, incluindo o de Tolkien, provam isso mesmo. Mas nunca iremos encontrar esta alegria se estivermos centrados em nós mesmos. O paradoxo é que é imprescindível esquecermo-nos de nós próprios para encontrarmos a felicidade que procuramos.

Homens, se querem um casamento feliz têm que morrer para vocês próprios. Têm que colocar a vossa mulher em primeiro lugar. Tem que amá-la sacrificando-se por ela como Cristo pela sua esposa, a Igreja. Este é o segredo tão simples que infelizmente escapa a muitos. 

Sam Guzman in 'The Catholic Gentleman'

(Tradução: Teresinha Ferin da Cunha)


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"A pior mentira é aquela que é meia verdade" - G. K. Chesterton

Um comentário pode ser falacioso; uma notícia pode ser falsa. Mesmo que não seja falsa, pode ser escolhida para dar uma imagem completamente falsa do assunto em questão.

Seleccionar é a arte fina da falsidade. A pior mentira é aquela que é meia verdade.

Os jornalistas são os novos sacerdotes. Mas contrariamente aos antigos, não os norteia a contrição nem a fé na verdade. Nem tão pouco o sentido de pertença ao povo que deveriam servir.

G.K. Chesterton in 'Distortions of the Press' (1909) 


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