quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O Relatório Final do Sínodo Extraordinário dos Bispos de Outubro de 1985 sobre o Concílio Vaticano II (1ª parte)

Já desde há muitos anos se tem falado e escrito sobre o Concilio Vaticano II (1962-1965) (CV II): sobre os seus antecedentes próximos e até remotos; as suas virtudes; as suas ambiguidades; as deficiências e dificuldades na sua aceitação; enfim, as suas sequelas e, the last but not the least, o modo correcto de o interpretar, ou seja, a sua hermenêutica.

Ficou já para os anais da história conciliar, o discurso à Cúria romana que o Papa Bento XVI fez a 22 de Dezembro de 2005 (1), com a tipificação da hermenêutica conciliar em dois modos contrários: a da «hermenêutica da descontinuidade e da rotura» e a da «hermenêutica da reforma, da renovação na continuidade»; assim como a “lição” proferida ao Clero de Roma, sobre alguns dos mais significativos documentos do Concílio, no seu último encontro com eles, enquanto Papa, no dia 14 de Fevereiro 2013 (2), apenas a duas semanas da sua resignação efectiva.

Um dos temas maiores, entre tantos outros, sobre o qual o CV II se debruçou, foi o da «Constituição Hierárquica da Igreja e Em Especial o Episcopado», no qual, é sabido, trabalhou então como teólogo perito, o Padre Joseph Ratzinger. Tema esse que constitui o Capitulo III da «Constituição dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium» (LG). Neste Capítulo III da LG, ficaram promulgados para além dos aspectos relacionados com a sucessão dos doze Apóstolos; o pensamento da Igreja sobre o Colégio dos Bispos, sucessores dos Apóstolos, e a sua Cabeça (o Papa); os poderes do Romano Pontífice; os poderes e as relações entre os próprios Bispos; as relações do Papa no e com o Colégio dos Bispos; a reafirmação da infalibilidade «na definição de doutrinas de fé ou costumes» de que goza o Papa, enquanto Cabeça do Colégio dos Bispos, assim como daquela de que é também possuidor o «colégio episcopal, quando este exerce o supremo magistério em união com o sucessor de Pedro» (LG, 25).

Da maior relevância para a história da redacção e correcta interpretação daquele Capítulo III da LG, há que referir que todo ele, foi objecto de uma célebre «Nota Explicativa Prévia», da Comissão Doutrinal do Concílio, comunicada «por autoridade superior» (sic, leia-se a mando de Paulo VI), em meados de Novembro de 1964, a dias da votação final da Constituição LG, onde se declarava que «é segundo o espírito e o sentido desta nota que se deve explicar e entender a doutrina exposta nesse capítulo terceiro» (3).

É nesta Nota que se detalha, «por autoridade superior» (sic), o entendimento a fazer sobre o que é o Colégio dos Bispos; como uma pessoa se torna seu membro; e qual a relação dos poderes do Sumo Pontífice «só» e em união com o próprio Colégio dos Bispos do qual é a Cabeça (4).

Em suma: a Nota de facto pretendeu enfraquecer uma interpretação demasiado generosa do alcance da noção de colegialidade e destacava a plenitude de poder de que sempre goza o Papa sozinho, enquanto Sucessor de Pedro.

Passados vinte anos - ia o Papa João Paulo II a cerca de um quarto do que seria o seu longo pontificado - realizou-se o segundo Sínodo Extraordinário dos Bispos, em Outubro de 1985, para «celebrar, verificar, [e] promover o Vaticano II». No final, os Bispos elaboraram o «Relatório Final» (RF), do qual só agora eu vim a tomar conhecimento, através de uma versão em Inglês (5).

Constatei que nenhuma versão deste Relatório, em que língua seja, consta do sítio internet do Vaticano, nem mesmo do sítio institucional específico dedicado ao Sínodo dos Bispos. Ao que me parece, naquele tempo era essa a regra: o Relatório Final dos Bispos, assim como as propostas a fazer ao Papa, eram endereçados exclusivamente ao Santo Padre, não sendo dado a conhecer ao público, ao contrário do que tem acontecido já desde Bento XVI. Para já, recordemo-nos de que foi decorrente do expresso pedido dos Bispos neste Sínodo Extraordinário de 1985, que se deveu a redacção do Catecismo da Igreja Católica, promulgado por João Paulo II em 1992, assim como o respectivo Compêndio, aprovado e publicado por Bento XVI em 2005.

Trinta anos depois daquele Sínodo Extraordinário de 85, ao comemorar o cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos pelo Papa Paulo VI  – de facto, a relevante expressão institucional perpétua da Colegialidade dos Bispos – o Papa Francisco fez um importante Discurso, em Outubro de 2015, no decurso do segundo Sínodo sobre a família, onde se deteve sobre a sinodalidade, isto é, nas suas palavras, o «caminhar juntos – leigos, pastores, Bispo de Roma»; sendo o Papa muito claro na sua intenção:

«Devemos continuar por esta estrada. O mundo, em que vivemos e que somos chamados a amar e servir mesmo nas suas contradições, exige da Igreja o reforço das sinergias em todas as áreas da sua missão. O caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio» (6).

Não tardaram recensões deste discurso de Francisco, algo triunfantes, onde se louvavam os benefícios do «caminhar juntos» e da similitude entre a Igreja e o Sínodo e onde se revigora a implementação da colegialidade, como, por exemplo, a de um site brasileiro (7), no qual, dias depois, até se ousou, abusivamente, proclamar o seguinte grito que mais parece de vingança:

«Pois bem, o Papa Francisco pôs fim, em um único discurso, à Nota explicativa praevia de 1964 e às conclusões do Sínodo de 1985» (8) (negritos no original).

Quanto à referida Nota, já vimos atrás o que Paulo VI, com a sua autoridade, pretendeu explicar e sublinhar; e veremos mais adiante que o seu teor foi claramente reafirmado no RF de 1985. Numa 2ª parte deste meu artigo (9), veremos algumas das conclusões do Sínodo de 1985, às quais, segundo aquele articulista, o Papa Francisco terá alegadamente posto fim, o que não é verdade.

E com esta e outras atitudes tendenciosamente “iconoclastas” podemos confrontar as acusações que - numa outra perspectiva bem diversa, ainda que também de rotura, se têm intensificado mais recentemente em artigos e blogs - produzidos também contra uma correcta interpretação do Concílio e em desfavor dos Papas que o receberam, nomeadamente João Paulo II e Bento XVI, acusando-os de influências modernistas e por aí fora; sem terem em conta o que João Paulo II pretendeu com o Sínodo Extraordinário de 85, como é patente no RF respectivo, nem muito presente a documentada mudança de perspectivas que Joseph Ratzinger foi de facto assumindo desde que foi teólogo perito no Concílio até ao seu actual estatuto inédito de Papa Emérito. Quanto a este, basta ler o modo como o próprio Bento XVI se refere à sua participação no Concílio e aos seus efeitos, no recente livro-entrevista Últimas conversas com Peter Seewald, particularmente o capítulo da segunda parte intitulado justamente O Concílio: entre sonho e traumatismo (10.).

De facto, a referida contraposição de perspectivas e interpretações da história e dos documentos do Concilio Vaticano II, só vem acentuar (ou, finalmente clarificar?, só o futuro o dirá) a cada vez mais notória confusão que cresce actualmente na Igreja e que só não é vista ou admitida por quem tem dificuldades em lidar com graves situações de conflito; mas também por medo ou, porventura, devido a uma “prudente” gestão das relações de poder clerical...

Efectivamente, o Sínodo Extraordinário de 1985, já por aqueles anos, colocava-se numa posição de justo equilíbrio na análise do Concílio e dos primeiros vinte anos dos efeitos que se lhe seguiram, percorrendo um processo de recepção que João Paulo II procurou, digamos, regularizar numa «perspectiva interpretativa oficial, autorizada e normalizante» (sic) - como escreveu, num longo e clarificador artigo, um Professor da Universidade Católica de Minas Gerais, cuja leitura me permito recomendar (11).

Avancemos então para algumas significativas passagens do Relatório Final (RF) de 1985. Ele é constituído por duas partes fundamentais: na I, afirma-se o Tema Central deste Sínodo – Celebração, Verificação, Promoção do Vaticano II; na II, debruça-se sobre alguns Temas Particulares do Sínodo – o Mistério da Igreja, as Fontes da vida para a Igreja, a Igreja como Comunhão (e neste, particularmente sobre o tema quente da Colegialidade), a Missão da Igreja no Mundo (e aqui, detém-se sobre o significado da célebre noção de “Aggiornamento” (12), assim como da Inculturação).

Como é costume nos Relatórios finais, ao final de cada uma das diversas partes e temas, surgem as propostas dos Bispos ao Papa. Tanto quanto me foi possível investigar, deste Sínodo não resultou nenhuma Exortação Apostólica Pós-sinodal de João Paulo II; os frutos mais notórios e de maior impacto foram, como já atrás referi, o Catecismo e o respectivo Compêndio. E não é certamente pouco: penso até que podemos dizer, hoje, que a sua necessidade e oportunidade se têm manifestado autenticamente proféticas.

Aqui vão então e sem comentários, nesta 1ª parte do meu artigo, já alguns excertos do RF de 1985 que efectivamente me parecem muito oportunos divulgar, perante o contexto eclesial actual (com tradução para português da minha responsabilidade, a partir da referida versão em inglês):

I. O Tema Central deste Sínodo: Celebração, Verificação, Promoção do Vaticano II

«Celebrámos em unanimidade o Concílio Vaticano II como uma graça de Deus e um dom do Espírito Santo, ao qual se seguiram muitos frutos espirituais para a Igreja universal e para as Igrejas Particulares, assim como para o homem do nosso tempo. Também verificámos unanimemente e com alegria que o Concílio é uma expressão legítima e válida; e uma interpretação do depósito da fé, tal como se encontra na Sagrada Escritura e na tradição viva da Igreja» (RF, I,2).

«A larga maioria dos fieis recebeu o Concílio Vaticano II com zelo; uns poucos aqui e além, mostraram resistência ao mesmo» (RF, I,3).

«Seja como for, embora grandes frutos tivessem brotado do Concílio, ao mesmo tempo reconhecemos, com grande sinceridade, deficiências e dificuldades na aceitação do mesmo. Na verdade, certamente também houve sombras no período pós-conciliar, em parte devido a uma incompleta compreensão e aplicação do Concílio, em parte devido a outras causas. Todavia, de maneira nenhuma pode ser afirmado que tudo o que aconteceu depois do Concílio foi por este causado» (RF, I,3).

«Entre as causas internas [das dificuldades] devem-se notar uma leitura parcial e selectiva do Concílio, assim como uma interpretação superficial da sua doutrina num sentido ou outro. Por um lado, houve decepções porque fomos muito hesitantes na aplicação da verdadeira doutrina do Concílio. Por outro lado, devido a uma leitura parcial do Concílio, foi feita uma apresentação unilateral da Igreja, como uma estrutura puramente institucional, esvaziada do seu Mistério» (RF, I,4).

«De quando em quando, também houve um descuido no discernimento dos espíritos, faltando distinguir correctamente entre uma legítima abertura do Concílio ao mundo e a aceitação da secularização de uma mentalidade mundana e da ordem dos valores» (RF, I,4).

«A interpretação teológica da doutrina conciliar deve prestar atenção a todos os documentos, em si mesmos e nas suas inter-relações, de tal modo que o significado das afirmações do Concílio – frequentemente muito complexos – possa ser entendido e expresso. Uma especial atenção deve ser prestada às quatro Constituições do Concílio, as quais contêm a chave interpretativa dos outros Decretos e Declarações. Não é lícito separar o carácter pastoral do vigor doutrinário dos documentos. Da mesma maneira, não é legítimo separar o espírito da letra do Concílio. Além do mais, o Concílio deve ser compreendido em continuidade com a grande tradição da Igreja e ao mesmo tempo nós devemos receber a luz da doutrina do próprio Concílio para a Igreja de hoje e para o homem do nosso tempo. A Igreja é uma e a mesma através de todos os Concílios» (RF, I,5).

18 de Janeiro de 2018, 1º dia da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos

João Duarte Bleck, médico e leigo Católico

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Referências (da 1ª parte)

 3. cf. pp. 114-116, Concílio Ecuménico Vaticano II – Constituições, Decretos, Declarações e Documentos Pontifícios, 10ª edição, Editorial AO, Braga, 1987.
 4. cf. Idem.
 9. A 2ª parte será publicada em breve tempo.
 10. A edição que li deste livro, foi a seguinte tradução em Francês: Benoît XVI, Dernières conversations avec Peter Seewald, traduit de l’allemand par Odile Demange, Librairie Arthème Fayard, septembre 2016, pp 143-167. Muito reveladora é a longa e documentada pergunta de Seewald onde este começa por afirmar: «A sua posição sobre o tema Concílio evoluiu progressivamente» (p 165), à qual o Papa Emérito começa por responder: «Eu teria tendência a responder que sim» (p 166). Livro a ler obrigatoriamente por quem pretenda perceber melhor este génio da Igreja das últimas décadas, assim como o que foi o desenrolar do Concílio e o período posterior da sua recepção e aplicação.
 11. Rodrigo Coppe Caldeira, O pontificado de João Paulo II e a herança do Concílio Vaticano II: em busca de uma interpretação normalizante, in Revista Brasileira de História das Religiões, ANPUH, Maringá (PR) v. V, Edição Especial, Janeiro 2013, pp 155-173.
 12. Aggiornaménto: esta palavra italiana, significa actualização, modernização, o processo de pôr em dia (cf. Dicionário de Italiano-Português, 3ª edição, Porto Editora, 2009).


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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Benedicta: o canto mariano dos Monges de Núrcia



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Santo Atanásio descreve a vida e tentações de Santo Antão

Antão foi egípcio de nascimento. Os seus pais eram de boa linhagem e abastados. Como eram cristãos, também o menino cresceu como cristão. Depois da morte dos seus pais ficou só com a sua única irmã, muito mais jovem. Tinha então uns dezoito a vinte anos, e tomou cuidado da casa e de sua irmã. Menos de seis meses depois da morte de seus pais, ia, como de costume, a caminho da igreja. Enquanto caminhava, ia meditando e reflectia como os apóstolos deixaram tudo, e seguiram o Salvador (Mt 4,20;19,27); como, segundo se refere nos Actos (4,35-37), os fiéis vendiam o que tinham e o punham aos pés dos Apóstolos para distribuição entre os necessitados, e quão grande é a esperança prometida nos céus para os que assim fazem (Ef 1,18; Col 1,5). 

Pensando estas coisas, entrou na igreja. Aconteceu que nesse momento se estava lendo o evangelho, e ouviu a passagem em que o Senhor disse ao jovem rico: "Se queres ser perfeito, vende o que tens e dá-o aos pobres, depois vem, segue-me e terás um tesouro no céu " (Mt 19,21). Como se Deus lhe houvera proposto a lembrança dos santos, e como se a leitura houvesse sido dirigida especialmente a ele, Antão saiu imediatamente da igreja e deu a propriedade que tinha de seus antepassados: trezentas "aruras", terra muito fértil e formosa. 

Não quis que nem ele nem sua irmã tivessem algo que ver com ela. Vendeu tudo o mais, os bens móveis que possuía, e entregou aos pobres a considerável soma recebida, deixando só um pouco para sua irmã. De novo, porém, entrando na igreja, ouviu aquela palavra do Senhor no evangelho: "Não se preocupem do amanhã" (Mt 6,34). Não pôde suportar maior espera, mas foi e distribuiu aos pobres também este pouco. Colocou sua irmã entre virgens conhecidas e de confiança, entregando-a para que a educassem.

Então dedicou todo o seu tempo à vida ascética, atento a si mesmo e vivendo de renúncia a si mesmo, perto de sua própria casa. Ainda não existiam tantas celas monásticas no Egipto, e nenhum monge conhecia sequer o longínquo deserto. Todo o que desejava enfrentar-se consigo mesmo, servindo a Cristo, praticava sozinho a vida ascética, não longe de sua aldeia. Naquele tempo havia na aldeia vizinha um ancião que desde sua juventude levava na solidão a vida ascética. Quando Antão o viu, "teve zelo pelo bem" (Gl 4,18), e se estabeleceu imediatamente na vizinhança da cidade. 

Desde então, quando ouvia que em alguma parte havia uma alma esforçada, ia, como sábia abelha, buscá-la e não voltava sem havê-la visto; só depois de haver recebido, por assim dizer, provisões para sua jornada de virtude, regressava. Aí, pois, passou o tempo de sua iniciação, se afirmou sua determinação de não voltar à casa de seus pais nem de pensar em seus parentes, mas a dedicar todas as suas inclinações e energias à prática contínua da via ascética. Fazia trabalho manual pois tinha ouvido que "o que não quer trabalhar não tem direito de comer" (2 Ts 3,10). Do que recebia guardava algo para sua manutenção e o resto dava-o aos pobres. Orava constantemente, tendo aprendido que devemos orar em privado (Mt 6,6) sem cessar (Lc 18,1; 21,36; 1 Ts 5,17). Além disso, estava tão atento à leitura da Sagrada Escritura, que nada se lhe escapava: retinha tudo, e assim a sua memória lhe servia de livro.

Mas o demónio, que odeia e inveja o bem, não podia ver tal resolução num jovem, e pôs-se a empregar suas velhas tácticas também contra ele. Primeiro tratou de fazê-lo desertar da vida ascética recordando-lhe sua propriedade, o cuidado da sua irmã, os apegos da parentela, o amor do dinheiro, o amor à glória, os inumeráveis prazeres da mesa e todas as demais coisas agradáveis da vida. Finalmente apresentou-lhe a austeridade e tudo o que se segue a essa virtude, sugerindo-lhe que o corpo é fraco e o tempo é longo. 

Em resumo, despertou em sua mente toda uma nuvem de argumentos, procurando fazê-lo abandonar seu firme propósito. O inimigo viu, no entanto, que era impotente em face da determinação de Antão, e que antes era ele que estava sendo vencido pela firmeza do homem, derrotado por sua sólida fé e sua constante oração. Pôs então toda a sua confiança nas armas que estão "nos músculos de seu ventre" (Jo 40,16). Jactando-se delas, pois são sua preferida artimanha contra os jovens, atacou o jovem molestando-o de noite e instigando-o de dia, de tal modo que até os que viam Antão podiam aperceber-se da luta que se travava entre os dois. 

O inimigo queria sugerir-lhe pensamentos baixos, mas ele os dissipava com orações; procurava incitá-lo ao prazer, mas Antão, envergonhado, cingia seu corpo com sua fé, orações e jejuns. Atreveu-se então o perverso demónio a disfarçar-se em mulher e fazer-se passar por ela em todas as formas possíveis durante a noite, só para enganar a Antão. Mas ele encheu seus pensamentos de Cristo, reflectiu sobre a nobreza da alma criada por Ele, e sua espiritualidade, e assim apagou o carvão ardente da tentação. E quando de novo o inimigo lhe sugeriu o encanto sedutor do prazer, Antão, enfadado com razão, e entristecido, manteve seus propósitos com a ameaça do fogo e dos vermes (cf Jd 16,21; Sir 7,19; Is 66,24; Mc 9,48) (20). Sustentando isto no alto, como escudo, passou por tudo sem se dobrar.

Toda essa experiência levou o inimigo a envergonhar-se. Em verdade, ele, que pensara ser como Deus, fez-se louco ante a resistência de um homem. Ele, que na sua presunção desdenhava carne e sangue, foi agora derrotado por um homem de carne em sua carne. Verdadeiramente o Senhor trabalhava com este homem, Ele que por nós tornou-Se carne e deu ao Seu corpo a vitória sobre o demónio. Assim, todos os que combatem seriamente podem dizer: "Não eu, mas a graça de Deus comigo" (1 Cor 15,10). 

Finalmente, quando o dragão não pôde conquistar Antão nem por estes últimos meios, mas viu-se arrojado de seu coração, rangendo os seus dentes, como diz a Escritura (Mc 9,17), mudou, por assim dizer, sua pessoa. Tal como é seu coração, assim lhe apareceu: como um moço preto; e como inclinando-se diante dele, já não o molestou com pensamentos - pois o impostor tinha sido lançado fora - mas usando voz humana disse-lhe: "A muitos enganei e venci; mas agora que te ataquei a ti e a teus esforços como o fiz com tantos outros, mostrei-me demasiadamente fraco". "Quem és tu que me falas assim?", perguntou-lhe Antão. Apressou-se o outro a replicar com a voz lastimosa: "Sou o amante da fornicação. A minha missão é espreitar a juventude e seduzi-la; chamam-me o espírito de fornicação. A quantos eu enganei, decididos que estavam a cuidar de seus sentidos! A quantas pessoas castas seduzi com minhas lisonjas! 

Eu sou aquele por cuja causa o profeta censura os decaídos: "Foram enganados pelos espírito da fornicação" (Os 4,12). Sim, fui eu que os levei à queda. Fui eu que tanto te molestei e tão a miúde fui vencido por ti". Antão deu, pois, graças ao Senhor e armando-se de coragem contra ele, disse: "És então inteiramente desprezível; és negro em tua alma e tão débil como um menino. Doravante já não me causas nenhuma preocupação, porque o Senhor está comigo e me auxilia: verei a derrota de meus adversários" (Sl 117, 7). Ouvindo isto, o negro desapareceu imediatamente, inclinando-se a tais palavras e temendo acercar-se do homem.

Assim dominou-se Antão a si mesmo. Decidiu então mudar-se para os sepulcros que se achavam a certa distância da aldeia. Pediu a um dos seus familiares que lhe levasse pão a longos intervalos. Entrou, pois, em uma das tumbas; o mencionado homem fechou a porta atrás dele, e assim ficou dentro sozinho. Isto era mais do que o inimigo podia suportar, pois em verdade temia que agora fosse encher também o deserto com a vida ascética. Assim chegou uma noite com um grande número de demónios e o açoitou tão implacavelmente que ficou lançado no chão, sem fala pela dor. 

Afirmava que a dor era tão forte que os golpes não podiam ter sido infligidos por homem algum para causar semelhante tormento. Pela Providência de Deus - porque o Senhor não abandona os que nele esperam - seu parente chegou no dia seguinte trazendo-lhe pão. Quando abriu a porta e o viu atirado no chão como morto, levantou-o e o levou até a igreja da aldeia e o depositou sobre o solo. Muitos de seus parentes e da gente da aldeia sentaram-se em volta de Antão como para velar um cadáver. Mas pela meia-noite Antão recobrou o conhecimento e despertou. Quando viu que todos estavam dormindo e só seu amigo se achava desperto, fez-lhe sinais para que se aproximasse e pediu-lhe que o levantasse e levasse de novo para os sepulcros, sem despertar ninguém. O homem levou-o de volta, a porta foi trancada como antes e de novo ficou dentro, sozinho. 

Pelos golpes recebidos estava demasiado fraco para manter-se de pé; orava então, estendido no solo. Terminada sua oração, gritou: "Aqui estou eu, Antão, que não me acovardei com teus golpes, e ainda que mais me dês, nada me separará do amor de Cristo (Rm 8,35). E começou a cantar: "Se um exército se acampar contra mim, meu coração não temerá" (Sl 26,3). Tais eram os pensamentos e palavras do asceta, mas o que odeia o bem, o inimigo assombrado de que depois de todos os golpes ainda tivesse valor para voltar, chamou seus cães e arrebatado de raiva disse: "Vêem vocês que não pudemos deter esse tipo nem com o espírito de fornicação nem com os golpes; ao contrário, chega até a desafiar-nos. Vamos proceder contra ele de outro modo". A função de malfeitor não é difícil para o demónio. 

Essa noite, por isso, fizeram tal estrépito que o lugar parecia sacudido por um terremoto. Era como se os demónios abrissem passagens pelas quatro paredes do recinto, invadindo impetuosamente através delas em forma de bestas ferozes e répteis. De repente todo o lugar se encheu de imagens fantasmagóricas de leões, ursos, leopardos, touros, serpentes, víboras, escorpiões e lobos; cada qual se movia segundo o exemplar que havia assumido. O leão rugia, pronto a saltar sobre ele; o touro, quase a atravessá-lo com os chifres; a serpente retorcia-se sem o alcançar completamente; o lobo acometia-o de frente. E a gritaria armada simultaneamente por todas essas aparições era espantosa, e a fúria que mostravam, feroz. 

Antão, atormentado e pungido por eles, sentia aumentar a dor em seu corpo; no entanto, permanecia sem medo e com o espírito vigilante. Gemia, é verdade, pela dor que atormentava seu corpo, mas a mente era senhora da situação e, como por debique, dizia-lhes: "Se tivessem poder sobre mim, teria bastado que viesse um só de vocês; mas o Senhor lhes tirou a força e por isso se esforçam em fazer-me perder o juízo com seu número; é sinal de fraqueza terem de imitar animais ferozes". De novo teve a valentia de dizer-lhes: "Se é que podem, se é que receberam poder sobre mim, não se demorem, venham ao ataque! E se nada podem, para que esforçar-se tanto sem nenhum fim? Porque a fé em Nosso Senhor é selo para nós e muro de salvação". Assim, depois de haver intentado muitas argúcias, rangeram os dentes contra ele, porque eram eles próprios que estavam ficando loucos e não ele.

De novo o Senhor não se esqueceu de Antão na sua luta, mas veio ajudá-lo. Quando olhou para cima, viu como se o tecto se abrisse e um raio de luz baixasse até ele. Foram-se os demónios de repente, cessou-lhe a dor do corpo, e o edifício estava restaurado como antes. Notando que a ajuda chegara, Antão respirou livremente e sentiu-se aliviado das suas dores. E perguntou à visão: "onde estavas tu? Por que não aparecestes no começo para deter minhas dores?" E uma voz lhe falou: "Antão, eu estava aqui, mas esperava ver-te enquanto agias. E agora, porque aguentaste sem te renderes, serei sempre teu auxílio e te tornarei famoso em toda parte". Ouvindo isto, levantou-se e orou: e ficou tão fortalecido que sentiu o seu corpo mais vigoroso que antes. Tinha por aquele tempo uns trinta e cinco anos de idade”.

Santo Atanásio in 'Vida de Santo Antão'


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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A mensagem de Fátima continua por cumprir



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PSD - Perversão Sacripanta Dacnomaníaca

A deriva putrefacta e totalitária do psd tem vindo a acentuar-se ao longo dos anos.  A sanha furiosa e selvagem da mentalidade frenética, danada, homicida e satânica, foi paulatinamente ganhando força até tomar o poder, seduzindo e ilusionando os militantes do boa-vontade, muitos deles católicos que, não obstante o seu espírito sincero de missão, se tornaram “companheiros de jornada” ou, como outros interpretam, ‘idiotas úteis’.

Nas eleições de ontem foi escolhido, pelos militantes do partido,  por larga maioria, uma candidato que se empenhou, pública e activamente, na campanha para liberalizar o homicídio-aborto e, mais recentemente se pronunciou, por escrito público, como favorável ao homicídio sob a forma de eutanásia/suicídio assistido.

De nada adianta afirmar que o partido não tem uma posição sobre esses temas e que os deixa à consciência de cada um dos deputados – mutatis mutandi  seria o mesmo que, perante o holocausto, uma força política de então dissesse que o problema da matança dos judeus, e de tantos outros, era uma questão da consciência de cada um. Acresce que, consequentemente, não haverá um critério adequado para a escolha dos órgãos partidários, dos deputados e de um hipotético governo. 

De modo, que os denominados católicos que militam neste partido estão a repetir o erro crasso de outros irmãos na Fé que, há alguns anos, cooperaram com o Partido Socialista. Servem para angariar, votos, promover o partido, iludindo os votantes crentes, e, ainda, para perpetuar as gravíssimas injustiças ‘legisladas’, contribuindo desse modo para impregnar a cultura e mentalidade das gentes não só com uma indiferença, fruto da não impugnação por parte de quem o devia fazer, mas, mais grave ainda, suscitando a conformidade e concordância com aquilo que deveria ser adversado e repugnado. 

Já se sabe que para isto contribui a Rádio Renascença, agências eclesiais e a repetição, monótona e bocejante de um Episcopado que em vez de promover uma formação contínua e sistemática, repete há décadas, como um gravador avariado, que é preciso um grande debate (?) na sociedade portuguesa que, evidentemente, é perpetuamente adiado.

Se era já extremamente difícil admitir, tentando justificar, a presença de católicos e apoiantes no psd, a partir de ontem parece impossível fazê-lo, uma vez que não se vê  como poderão evitar a cooperação formal ou gravemente material com o mal, o que nunca è permissível, mesmo que seja como meio para alcançar um fim considerado bem.

O dever grave de não cooperar com forças políticas ou partidos que lesionam os princípios básicos da Fé e da Moral não exime os católicos da responsabilidade pelo Bem-comum. Afinal o empenho político não se esgota –e frequentemente mesmo distorce-se - na partidocracia nem no voto nem na maioria como critério do justo e do injusto, do bem e do mal, do verdadeiro e do falso.

Pe. Nuno Serras Pereira


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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Polónia: Partido do Governo propõe que bebés com deformações graves possam nascer para receberem o baptismo

Jaroslaw Kaczynski, o Presidente do PiS (Partido que está no Governo na Polónia), fez uma proposta que escandalizou a União Europeia porque reconhece a dignidade do nascituro e a importância do baptismo:

«Queremos chegar a um ponto em que, mesmo nos casos de gravidezes muito difíceis, em que a criança está condenada à morte, com deformações graves, estas terminem num parto, para que a criança possa ser baptizada, enterrada, ter um nome. 

Queremos que isto seja possível tendo em conta a ajuda real que será prestada também através de meios públicos. Claro que estamos a falar de casos de gravidezes difíceis, em que não há risco para vida e saúde da Mãe.»


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São Paulo, o primeiro eremita

São Paulo, eremita, foi um dos primeiros a abraçar a vida monástica (séc. IV). A vida deste santo foi escrita pelo grande sábio São Jerónimo, no ano 400. Nasceu no ano 228, em Tebaida (hoje Egipto), uma região que fica junto ao rio Nilo e que tinha por capital a cidade de Tebas. Foi bem educado pelos seus pais, aprendeu grego e bastante cultura egípcia. Mas aos 14 anos ficou órfão. Era bondoso e muito piedoso. E amava enormemente a sua religião. 

No ano 250 estalou a perseguição do Imperador Décio. Paulo viu-se ante estes dois perigos: ou negar a sua Fé e conservar suas quintas e casas, ou ser atormentado com tão diabólica astúcia que o conseguissem acobardar e o fizessem passar para o paganismo para não perder seus bens e não ter que sofrer mais torturas.

Como via que muitos cristãos negavam a Fé por medo, e ele não se sentia com a suficiente força de vontade para ser capaz de sofrer toda classe de tormentos sem renunciar à sua crença, dispôs-se a esconder-se. Era prudente.  Mas um seu cunhado que desejava ficar com os seus bens denunciou-o às autoridades. Então Paulo fugiu para o deserto. Lá encontrou umas cavernas onde vários séculos antes os escravos da rainha Cleópatra fabricavam moedas. Escolheu por vivenda uma dessas covas, perto da qual havia uma fonte de água e uma palmeira. As folhas da palmeira proporcionavam-lhe vestes. Os seus frutos serviam-lhe de alimento. E a fonte de água acalmava-lhe a sede. 

No princípio o pensamento de Paulo era ficar por ali unicamente o tempo que durasse a perseguição, mas logo se deu conta de que na solidão do deserto podia falar tranquilamente a Deus e escutar tão claramente as mensagens que Ele lhe enviava, que decidiu ficar ali para sempre e não voltar jamais à cidade onde tantos perigos havia de ofender a Nosso Senhor. 

Propôs-se ajudar o mundo não com negócios e palavras, mas com penitências e oração pela conversão dos pecadores. Disse São Jerónimo que quando a palmeira não tinha fruto, cada dia vinha um corvo e lhe trazia meio pão, e com isso vivia o nosso santo ermitão (a Igreja chama ermitão ao que para sua vida numa "ermida", ou seja numa habitação solitária e retirada do mundo e de outras habitações).

Depois de passar ali no deserto orando, jejuando, meditando, por mais de setenta anos seguidos, já acreditava que morreria sem voltar a ver rosto humano algum, e sem ser conhecido por ninguém, quando Deus dispôs cumprir aquela palavra que disse Cristo: "Todo o que se humilha será exaltado" e sucedeu que naquele deserto havia outro ermitão que fazia penitência. Era Santo António Abade. E uma vez a este santo lhe veio a tentação de crer que ele era o ermitão mais antigo que havia no mundo, e uma noite ouviu em sonhos que lhe diziam: "Há outro penitente mais antigo que tu. Empreende a viagem e o lograrás encontrar."

António madrugou para partir de viagem e depois de caminhar horas e horas chegou à porta da cova onde vivia Paulo. Este, ao ouvir ruído lá fora, acreditou que era uma fera que se acercava, e tapou a entrada com uma pedra. António chamou durante muito longo tempo suplicando-lhe que movesse a pedra para poder saudá-lo.  Por fim, Paulo saiu e os dois santos, sem se haverem visto antes, saudaram-se cada um pelo seu respectivo nome. Logo se ajoelharam e deram graças a Deus. E nesse momento chegou o corvo trazendo um pão inteiro. 

Então Paulo exclamou: "Vê como Deus é bom. Cada dia me manda meio pão, mas como hoje vieste tu, o Senhor envia um pão inteiro." Puseram-se a discutir quem devia partir o pão, porque esta honra correspondia ao mais digno. E cada um se cria mais indigno que o outro. Por fim decidiram que o partiriam tirando cada um de um extremo do pão. Depois desceram à fonte e beberam água cristalina. Era todo o alimento que tomavam em 24 horas. Meio pão e um pouco de água. E depois de conversarem de coisas espirituais, passaram toda a noite em oração.  Na manhã seguinte Paulo anunciou a António que sentia que ia a morrer e lhe disse: "Vai ao teu mosteiro e traz-me o manto que Santo Atanásio, o grande bispo, te deu. Quero que me amortalhem com esse manto".

Santo António admirou-se de que Paulo soubesse que Santo Atanásio lhe havia dado esse manto, e foi buscá-lo. Mas temia que ao voltar o pudesse encontrar já morto. Quando já vinha de volta, contemplou numa visão que a alma de Paulo subia ao céu rodeado de apóstolos e de anjos. E exclamou: "Paulo, Paulo, por que te foste sem me dizer adeus?". (Depois António dirá aos seus monges: "Eu sou um pobre pecador, mas no deserto conheci a um que era tão santo como um João Baptista: era Paulo, o ermitão"). Quando chegou à cova encontrou o cadáver do santo, ajoelhado, com os olhos dirigidos para o Céu e os braços em cruz. Parecia que estivesse rezando, mas ao não ouvi-lo nem sequer respirar, acercou-se e viu que estava morto.

Morreu na ocupação à qual havia dedicado a maior parte das horas da sua vida: orar ao Senhor. António perguntava-se como faria para cavar uma sepultura ali, se não tinha ferramentas. Mas logo ouviu que se acercavam dois leões, como com mostras de tristeza e respeito, e eles, com as suas garras cavaram um túmulo entre a areia e foram embora. E ali depositou Santo António o cadáver do seu amigo Paulo. São Paulo morreu no ano 342 quando tinha 113 anos de idade e quando levava 90 anos orando e fazendo penitência no deserto pela salvação do mundo. É chamado o primeiro ermitão, por haver sido o primeiro que foi para um deserto a viver totalmente retirado do mundo, dedicado à oração e à meditação.

Santo António conservou sempre com enorme respeito a vestidura de São Paulo feita de folhas de palmeira, e ele mesmo se revestia com ela nas grandes festividades. São Jerónimo dizia: "Se o Senhor me pusesse a escolher, eu preferiria a pobre túnica de folhas de palmeira com a qual se cobria Paulo o ermitão, porque ele era um santo, e não o luxuoso manto com o qual se vestem os reis tão cheios de orgulho". São Paulo com a sua vida de silêncio, oração e meditação no meio do deserto, motivou muitos a afastar-se do mundo e a dedicar-se com mais seriedade na solidão a buscar a satisfação e a eterna salvação.

in Pale Ideas


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sábado, 13 de janeiro de 2018

Ratzinger explica que criticar os pronunciamentos do Papa é possível e por vezes mesmo necessário

Em 1969, o futuro Papa Bento XVI, então Pe. Joseph Ratzinger, escreveu que criticar as declarações papais era não só possível mas até necessário, sempre que o Papa pudesse desviar-se do depósito da fé e da tradição apostólica. O Papa Bento XVI incluiu estas observações na antologia dos seus escritos, 'Fede, ragione, verità e amore' de 2009. Tais observações, que agora publicamos abaixo traduzidas, são particularmente relevantes à luz da correção filial ao Papa Francisco:

«Devemos evitar especialmente a impressão de que o Papa (ou o ofício em geral) só pode reunir e expressar, de tempos em tempos, a média estatística da fé viva, para a qual não é possível uma decisão contrária a esses valores estatísticos médios (os quais, para além do mais, são problemáticos em sua verificabilidade).

A fé baseia-se nos dados objectivos da Escritura e do dogma, que nos tempos obscuros também podem desaparecer assustadoramente da consciência da maior parte do cristianismo (em termos estatísticos), sem perder de qualquer forma, contudo, o seu carácter obrigatório e vinculativo.

Neste caso, a palavra do Papa pode e deve certamente ir contra as estatísticas e contra o poder de uma opinião que pretende fortemente ser a única válida; e isso deve ser feito de forma tão decisiva quanto o testemunho da tradição é claro (como no caso apresentado). Pelo contrário, a crítica dos pronunciamentos papais será possível e até necessária quando carecem de fundamentação na Escritura e no Credo, isto é, na fé de toda a Igreja.

Quando não se tem o consenso de toda a Igreja, nem existem evidências claras das fontes, não é possível uma decisão vinculativa e definitiva. Se tal acontecesse formalmente, faltariam as condições para tal ato e, portanto, teria de ser levantada a questão quanto à sua legitimidade.» - Das neue Volk Gottes: Entwürfe zur Ekklesiologie, (Düsseldorf: Patmos, 1972) p. 144. Fede, ragione, verità e amore, (Lindau 2009), p. 400.

Como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e mais tarde como o Papa Bento XVI, Ratzinger continuou as suas reflexões sobre os limites do poder do Pontífice Romano para contrariar a imutável doutrina:

Cardeal Joseph Ratzinger, 1998:

«O Romano Pontífice está como todos os fiéis submetido à Palavra de Deus, à fé católica e é garante da obediência da Igreja e, neste sentido, servus servorum. Ele não decide segundo o próprio arbítrio, mas dá voz à vontade do Senhor, que fala ao homem na Escritura vivida e interpretada pela Tradição; noutros termos, a episkopè do Primado tem os limites que procedem da lei divina e da inviolável constituição divina da Igreja, contida na Revelação. O Sucessor de Pedro é a rocha que, contra a arbitrariedade e o conformismo, garante uma rigorosa fidelidade à Palavra de Deus: daí resulta também o carácter martirológico do seu Primado.»

Papa Bento XVI, 2005:

«O poder conferido por Cristo a Pedro e aos seus sucessores é, em sentido absoluto, um mandato para servir. O poder de ensinar, na Igreja, obriga a um compromisso ao serviço da obediência à fé. O Papa não é um soberano absoluto, cujo pensar e querer são leis. Ao contrário: o ministério do Papa é garantia da obediência a Cristo e à Sua Palavra. Ele não deve proclamar as próprias ideias, mas vincular-se constantemente a si e à Igreja à obediência à Palavra de Deus, tanto perante todas as tentativas de adaptação e de adulteração, como diante de qualquer oportunismo.»

Andrew Guernsey in 'Rorate Caeli' (Tradução: odogmadafe.wordpress.com)


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Se Deus não existe tudo é permitido

"Uma vez que a Humanidade tenha negado a Deus... o Homem exaltar-se-á com um espírito divino, de orgulho titânico, e aparecerá como homem-deus... Se Deus não existe, tudo é permitido." 

Fiodor Dostoievski in 'Os Irmãos Karamazov'


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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Por quê o sofrimento?

O sofrimento parece a alguns ser um argumento contra o poder ou a bondade de Deus. A mensagem cristã responde que Deus não é – nem pode ser – o autor de algum mal; mas Ele permite que as criaturas, limitadas como são, cometam males físicos e morais; Ele não quer “policiar” o mundo artificialmente, mas se encarrega de tirar dos males produzidos pelas criaturas bens ainda maiores. 

Isto em vários casos é evidente, pois se verifica que, para muitas pessoas, o sofrimento é uma escola que converte e transfigura. Em outros casos, os frutos positivos do sofrimento não são tão perceptíveis; não obstante, o cristão tem certeza de que a Providência Divina não falha e um dia ele compreenderá plenamente o plano de Deus, do qual actualmente ele só percebe segmentos e facetas.

A figura do Filho de Deus, que, feito homem, assumiu a dor e a morte a fim de fazê-las passagem para a ressurreição e a glória, é o testemunho mais eloquente de que o sofrimento não é mera sentença da justiça ou castigo, mas está intimamente associado ao amor que Deus tem para conosco. Aceito em união com Cristo, o sofrimento vem a ser fonte de salvação para o paciente e de expiação dos pecados do mundo.

Um dos temas que mais vêm à tona nos círculos filosóficos e religiosos de nossos dias, é o do sofrimento. Quanto mais se alastra e intensifica a dor dos homens provocada pela fome, o terrorismo, as guerras…, tanto mais indagam a respeito do sentido do sofrimento. Frequentemente nasce daí a objecção; se Deus existe, como pode permitir tanta desgraça, especialmente quando afecta pessoas inocentes? Se tanto mal acontece, ou Deus não pode ou não quer evitá-lo. No primeiro caso, Ele não é todo-poderoso (então não é Deus); no segundo caso, Ele não ama seus filhos, pois nenhum pai assiste indiferente ao sofrimento dos seus filhos. Em consequência de tais raciocínios, parece lógico a muitos negar a existência do próprio Deus.

Eis por que as páginas subseqüentes serão dedicadas ao estudo de tal problema. Pode-se-lhe apresentar solução?… ou ao menos alguma luz que o esclareça? – Aliás, também o último Sínodo Mundial dos Bispos, encerrado em dezembro de 1985, chamou a atenção para a recrudescência do mal em nossos dias (tão marcados pela fome e pela ameaça de catástrofes nucleares) e solicitou especial atenção para a Teologia da Cruz:

“Percebemos que os sinais dos tempos são, em parte, diferentes daqueles dos tempos do Concílio, com problemas e angústias ainda mais graves. Com efeito; assistimos em toda parte ao aumento da fome, da opressão, da injustiça; a guerra domina em vários lugares, com os sofrimentos que ela acarreta, enquanto o terrorismo e a violência, sob mil formas, se manifestam um pouco por toda parte. Isto nos obriga a nova e mais profunda reflexão teológica para interpretar esses sinais à luz do Evangelho…

Parece que nas actuais dificuldades Deus nos quer ensinar mais profundamente o valor, a importância e a centralidade da Cruz de Jesus Cristo” (D, nº. 1 e 2).

Examinemos agora as objecções que, em vista do sofrimento da humanidade, são actualmente levantadas contra a existência ou os atributos de Deus.

1.    Se o mal existe, Deus existe?

Eis quatro objecções que a opinião pública formula:

1.1.        Deus sem poder ou sem amor

“Diante do sofrimento no mundo, Deus não pode ou não quer intervir. No primeiro caso, Ele é fraco ou destituído de poder; no segundo caso, Ele carece de amor para com seus filhos”.

– Esta objecção já foi longamente desenvolvida por Voltaire após o terremoto de Lisboa em 1755 e pelo filósofo Arthur Schopenhauer (+1860). Houve quem lhe respondesse, admitindo que Deus é muito sábio e muito poderoso, mas não todo-poderoso (assim Voltaire, Stuart Mill, M. Schiller). – Todavia quem assim pensa, está praticamente negando a existência de Deus, pois, por definição, ou Deus é a Suma Perfeição, sem limites, ou simplesmente não existe.

A resposta católica a tal objecção já foi formulada por S. Agostinho (+ 430), ao qual S. Tomás de Aquino (+ 1274) fez eco: “A existência do mal não se deve à falta de poder ou de bondade em Deus; ao contrário, Ele só permite o mal porque é suficientemente poderoso e bom para tirar do próprio mal o bem. – Nulo modo sineret aliquid mali esse in operibus suis, nisi esset adeo omnipotens et bonus ut bene faceret etiam de malo” (Enchiridion, c. 11; ver Suma Teológica Ia q. 22, art. 2, ad 2). Estas palavras, aliás, sintetizam toda a doutrina católica relativa à origem do mal:

1) O mal não é uma entidade positiva; mas uma carência do ser (ou do bem) devido. Assim a cegueira é a falta de olhos (é um mal nas criaturas às quais a natureza concede olhos); o pecado é a falta de concordância do ato humano com o Fim Supremo da moralidade, que é Deus.

2) Ora o não ser ou a carência como tal não tem causa. Só pode ser indirectamente causado por um agente falível ou uma criatura que, ao agir, seja capaz de produzir um efeito incompleto, carente de sua perfeição.

3) Por conseguinte, Deus, sendo por definição o Ser Perfeitíssimo, não pode ser causa do mal, Esta há de ser a criatura, que pode falhar ao agir no plano físico (um desastre de automóvel, uma enchente, uma seca…) ou no plano moral (o pecado).

4)  Deus permite que as criaturas exerçam a sua actividade conforme a natureza de cada uma; permite, pois, as falhas respectivas. Ele não fez um mundo artificialmente policiado ou de marionetas. Todavia em sua sabedoria e bondade. Ele se compromete a aproveitar o próprio mal cometido pelas criaturas para daí tirar bens maiores.

5) Não raro é-nos dado perceber os bens que se seguem aos males decorrentes da acção das criaturas. Com efeito, sabemos que muitas e muitas pessoas se transformaram e nobilitaram em consequência de uma moléstia grave, de um baque ou insucesso na vida. Em outros casos não nos é possível indicar os frutos positivos procedentes de algum mal; mas o cristão tem a certeza de que, no final dos tempos, lhe será concedido contemplar o plano de Deus e as ligações existentes entre os factos que ele abrange.

A resposta teológica aqui esboçada será mais amplamente explanada sob o título 2 deste artigo. Importa aqui mostrar apenas que a existência do mal no mundo não significa falta de poder ou de bondade em Deus. Os caminhos de Deus não são os dos homens, diz o Profeta (Is 55,8); a visão que Deus tem das criaturas e da história, é muito mais extensa do que a que nós temos. Por causa de nossas perspectivas limitadas, corremos o risco de apontar sem mais um mal ou um desastre onde há apenas o preâmbulo de um grande benefício arquitectado sobre a própria falibilidade das criaturas.

1.2.        Insistindo…

“Não aceito a explicação, pois frequentemente me parece que a desgraça é tão-somente desgraça, longe de qualquer plano providencial de Deus”.

A propósito formularemos três observações:

1) É preciso  que a criatura não faça de si mesma o padrão ou o critério para avaliar felicidade ou desventura. Não diga: “Se eu não vejo o lado positivo de uma desgraça, tal lado positivo não existe”. Somente Aquele cujo olhar abarca toda a história da humanidade pode definir o sentindo real que cada acontecimento tem nesse conjunto.

2) Se determinado mal não tem realmente uma contra-parte positiva ou valiosa, isto se deve muitas vezes ao endurecimento ou à indisposição do ser humano. Deus não constrange ninguém a acolher a sua graça. Com outras palavras: a pessoa que sofre, pode fechar-se numa atitude de revolta, que a torna impermeável à acção  do Espírito de Deus.

3) Se alguém insiste em negar a existência de Deus por causa das desgraças existentes no mundo, elimina do seu horizonte um factor de esperança e coragem, e não resolve o problema do sofrimento. Ao contrário, cria para si um novo problema. Com efeito, verifica-se que muitas e muitas pessoas, quando sofrem, apelam espontaneamente para Deus; assim nos cárceres, nos hospitais, nas trincheiras de guerra… é mais frequente o clamor que pede ajuda, do que a blasfémia. Quem sofre, experimenta muitas vezes a necessidade de um auxílio mais do que humano para tirá-lo da sua dor e salvar da desgraça os seus semelhantes.

Mais: se alguém nega a existência de Deus, vê-se diante de um mundo marcado pela injustiça e retido pelas leis do mais forte que esmaga o mais fraco… sem que possa haver esperança de restauração da ordem ou do reconhecimento dos verdadeiros valores. Já Platão (+ 347 a.C.), diante da injusta morte de Sócrates, afirmava a necessidade de haver uma justiça superior ou divina para que a morte de Sócrates não fosse um mero absurdo ou o triunfo do mal sobre o bem (ver os diálogos República e Fedon).

1.3.        Só para os maus…

“Somente os criminosos deveriam sofrer, ao passo que os justos haveriam de gozar de paz e felicidade. Ora às vezes parece que se dá contrário”.

A respeito ponderamos:

1) Todos os seres humanos são portadores de pecado. Não os dividamos em criminosos, de um lado, e inocentes, de outro lado. Os que não cometem graves faltas morais, trazem dentro de si a potencialidade ou a capacidade de as cometer.

2) O sofrimento não deve ser considerado apenas como punição ou sanção devida a um réu. Ao contrário, o sofrimento tem significado muito mais largo e nobre. Com efeito.

a) o sofrimento físico é decorrente da própria natureza do homem. A dor é sinal de alarme que torna o homem consciente de uma moléstia ou um distúrbio do seu organismo; se não fosse a dor, o mal progrediria sem que o paciente pudesse perceber adequadamente. O natural desgaste dos órgãos (coração, pulmões, fígado…) provoca dores que vêm a ser salutar advertência ou ensinamento para o homem.

b) O sofrimento está também muito ligado ao amor e à nobreza de carácter. Longe de ser castigo, o sofrimento decorre muitas vezes do facto de que alguém ama outra pessoa e compartilha as dores desta. Pode-se mesmo dizer: quanto mais alguém é digno e magnânimo, tanto mais sofre; quanto mais mesquinho ou desnaturado, tanto menos sofre. Qual a mãe que não sofre por causa da dor de seu filho?

c) De modo geral, o sofrimento é escola para o ser humano. Contribui para vencer o egoísmo e tornar a pessoa mais voltada para o próximo; torna actuantes muitas energias e potencialidades que  nunca desabrochariam se não fosse o sofrimento. Esta verdade é tão óbvia que já os antigos gregos a formularam no trocadilho: pathos mathos (sofrimento é ensinamento ou aprendizagem). Quem não passa pelo cadinho do sofrimento, muitas vezes é egocêntrico, e insensível para com os outros; desfigura-se no plano da personalidade.

1.4.        Ao menos, não seja excessivo!

Dirá alguém: “Se  o sofrimento tem suas vantagens, é para desejar que não se torne excessivo. Deus deveria saber moderá-lo”.

–  Respondemos que as expressões “excessivo” e “pouco demais” são relativas. Quem gosta de trabalhar, se dá por feliz quando desempenha uma tarefa grande e importante, que a pessoa vadia rejeitaria como “excessiva”. Caminhar um quilómetro, para uns, é excessivo, enquanto para outros é insuficiente. – Por conseguinte, é difícil levar em consideração a reivindicação do sofrimento não excessivo, já que este termo é vago ou genérico demais. Como dito, não devo fazer de minhas categorias de pensamento e afecto os critérios de aferição do que acontece aos outros principalmente se não conheço esses outros.

Passemos agora à explanação da resposta cristã ao problema do sofrimento.

2.    A resposta cristã

2.1.        Observação prévia

A fé ajuda o cristão a esclarecer o problema do sofrimento, mas não dissipa todo enigma a tal propósito. Especialmente quando se consideram casos particulares, como a morte desta mãe ou deste pai, que deixam crianças pequenas, não é possível oferecer explicação cabal e precisa para o ocorrido; nem nos é possível dizer por que tal desgaste de automóvel se deu precisamente em tal dia de festa. O livro de Jó nos recorda a insondabilidade do sofrimento, quando, referindo-se às tentativas de explicar o sofrimento, põe nos lábios de Jó as seguintes palavras:

“Eis que falei levianamente; poderei responder-te? Porei minha mão sobre a boca; Falei uma vez, não replicarei… Falei de coisas que não entendia, de maravilhas que me ultrapassam. Conhecia-te só de ouvido, mas agora viram-te os meus olhos; por isto retrato-me e faço penitência no pó e na cinza” (Jó 40, 4s; 42, 3-6).

Todavia a fé cristã projecta o mistério do sofrimento a perspectiva do amor de Deus; como é difícil dar explicação cabal para o mistério do amor, também é árduo explicar o mistério do sofrimento. A fé católica enquadra o mistério do sofrimento dentro do mistério  maior do amor. Com efeito, o amor de Deus, que criou o homem num misterioso ato de benevolência, jamais o abandona; certamente exerce seus planos através dos percalços da caminhada que a criatura percorre na terra. Todas as respectivas ocorrências estão sob o signo desse amor primeiro gratuito e irreversível (cf. 1Jo 4, 10, 19).

Examinemos agora, de mais perto, a explicação teológica.

2.2.        A origem do mal no mundo

A S. Escritura refere que o mal no mundo teve origem por violação (por parte dos primeiros pais) da ordem instaurada pelo Criador.

Com efeito. Deus quis dotar os primeiros homens de grande riqueza interior: 1) a graça santificante, que lhes comunicava a filiação divina e 2)  os dons preternaturais (a isenção da morte, do sofrimento, da desordem de tendências interiores…). Tal era o estado de justiça original.

Estes dons estavam condicionados à fidelidade do homem ao plano de Deus. Sim; deviam ser livremente aceites pela criatura. Por isto o Criador propôs a esta um modelo de vida (figurado pela proibição da fruta da árvore da ciência do bem e do mal, Gn 2,16s). Aceitando-o, o homem significaria sua entrega ao desígnio de Deus; recusando-o, exprimiria o seu Não e sua auto-suficiência. 

Ora na verdade os primeiros pais rejeitaram o modelo de vida apresentado pelo Senhor Deus; pecaram por soberba, que os levou à desobediência. Em consequência, perderam a chamada “justiça original” e caíram num estado em que existem a morte, o sofrimento, as tendências desregradas… Verdade é que tanto a morte como o sofrimento e os apetites instintivos são algo de natural; todavia após o pecado dos primeiros pais trazem a marca da desordem e da desobediência. 

O mundo que, por dom de Deus, estava harmoniosamente sujeito ao homem, já não é tal; enquanto o homem se mantinha submisso e fiel a Deus, o mundo inferior estava subordinado ao homem; todavia, rompida a sujeição do homem ao Criador, rompe-se a serventia das criaturas irracionais ao homem; estas o maltratam e esmagam, negam-lhe os frutos da terra e, não raro, as condições de sobrevivência.

Por conseguinte, conforme o texto sagrado e a doutrina da fé, a origem do mal no mundo está no pecado ou no plano moral. Este suscitou o mal físico (doenças, mortes, catástrofes, calamidades…).

A doutrina do pecado original assim concebida tem sido questionada ou posta em dúvida por parte de alguns teólogos e exegetas. Estes afirmam que o pecado começou sua história no mundo sem o quadro ou a moldura que o texto sagrado lhe assinala; não importaria o modo de suas origens. Tal teoria destrói a cosmovisão cristã. Por isto o S. Padre João Paulo II, em suas audiências de Quarta-feira, tem insistido no assunto, incutindo a doutrina de fé na Igreja; tenha-se em vista L’Osservatore Romano, edições semanais de setembro-outubro 1986.

Eis, porém, que, na história das relações do homem com Deus, a última palavra não foi a do pecado nem a da desordem. O Senhor Deus não se quis deixar vencer pelo mal, mas venceu o mal com o bem (cf. Rm 12,21). É o que veremos a seguir.

2.3.        O resgate da dor

Diz São Paulo: “Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo” (Ef 2,4s). Ou ainda: “Onde abundou o pecado, aí superabundou a graça” (Rm 5,20). Com outras palavras: Deus não ficou indiferente à desgraça na qual o homem se atirou pelo pecado; não assistiu “friamente” à tragédia; mas houve por bem assumi-la em toda a sua realidade concreta.

O testemunho do amor de Deus foi precisamente a obra de Cristo. Enviando seu Filho ao mundo, o Pai constituiu um segundo Adão ou um novo Cabeça da humanidade. Este assumiu a dor e a morte do homem até as últimas consequências, numa atitude de entrega e de amor ao Pai. Desta maneira mudou o significado do sofrimento humano; este já não é mera consequência do pecado ou sanção da justiça divina; ele foi redimido vindo a ser a vida de volta do homem a Deus. O homem sofre e, sofrendo, se encaminha para o Pai com Cristo.

Os teólogos costumam deter-se na explanação do valor do sacrifício de Cristo, valendo-se do texto de São Paulo: “Aquele que não conhecera o pecado, Deus o fez pecado por nós a fim de que nos tornássemos justiça de Deus por Ele” (2Cor 5,21). Estes dizeres significam que Cristo foi constituído sacrifício pelo pecado; Ele fez partir da própria natureza humana o amor e a dedicação ao Pai que o primeiro Adão recusou.

O cristão, sofrendo com Cristo, pode até mesmo tornar-se co-redentor com Jesus, expiando em sua carne os pecados da humanidade, como lembra o S. Padre Pio XII na encíclica Mystici Corporis Christi. Desta maneira, o sofrimento, além de ser escola benéfica (como foi dito à p. 65 deste artigo), é também ocasião de derramamento de graças sobre o mundo. O sofrimento dos inocentes há de ser visto à luz desta verdade: como Cristo inocente padeceu transfigurando a dor, assim o cristão santamente configurado a Cristo, padece oferecendo ao Pai o repúdio ao pecado e o amor que os pecadores deveriam tributar a Deus. 

O Pai celeste dispôs salvar os homens mediante Cristo e aqueles que se unem a Cristo pela santidade de sua vida. Assim a própria dor das pessoas retas e justas toma sentido. São Paulo dizia: “Completo em minha carne o que falta à Paixão de Cristo em favor do seu corpo que é a Igreja” (Cl 1,24). Quando o cristão sofre, não é simplesmente um ser biológico que sofre, mas é o próprio Redentor que estende a sua Paixão aos membros do seu Corpo Místico, associando-os à sua obra redentora: na verdade, o sacrifício de Cristo na Cruz foi infinitamente meritório, mas cada cristão pode dar-lhe o suporte ou a moldura da sua vida pessoal…, suporte que a Paixão de Cristo não teria se não fosse a vida de cada discípulo de Cristo.

O valor do sacrifício do cristão unido ao de Cristo foi realçado pelo Cardeal Frantisek Tomasek, de Praga, numa entrevista concedida ao periódico italiano II Sabato. O prelado falou então dos graves problemas que o regime comunista suscita para a Igreja na Tchecoslováquia (cerceamento de actividades pastorais, dificuldades para a nomeação de Bispos, encarceramento de sacerdotes e leigos…). O repórter então lhe perguntou:

“Eminência, não está cansado de combater uma batalha sem êxito?”

Respondeu o Cardeal: “A situação é difícil; não se vê como e quando possa melhorar. Mas tenho sempre esperança. Digo sempre uma coisa: quem trabalha pelo Reino de Deus, faz muito, quem reza, faz mais; quem sofre, faz tudo. Este tudo é exatamente o pouco que fazemos entre nós, na Tchecoslováquia”.

Quem sofre, faz tudo, desde que unido a Cristo, pois toma parte íntima na Paixão Redentora do Senhor, fonte de salvação para o mundo inteiro.

3.    Conclusão

Eis a maneira como a mensagem cristã responde ao problema do sofrimento humano. Aos olhos da fé, é plenamente satisfatória; tem suscitado grandes heróis e heroínas através dos séculos. O que esta explicação possui de mais típico, é o facto de conjugar entre si justiça e amor. Sim; o sofrimento, de um lado, é a justa consequência do Não dito pelo homem a Deus no início da sua história; por outro lado, é o testemunho do amor de Deus que, assumindo o sofrimento e a morte, demonstra ao homem que lhe quer bem e não desiste de o chamar à Vida; Cristo transfigurou o sofrimento e o fez caminho de conversão ou de retorno ao Pai.

D. Estevão Bettencourt, osb in 'Revista: Pergunte e Responderemos'Nº 297 – Ano 1987 – Pág. 61.


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